Gêmeos digitais nas cidades: por que os poucos governos a usam para decidir

por Grupo Editores Blog.

Gêmeos digitais são representações virtuais e alimentadas por dados que espelham a infraestrutura e os serviços de uma cidade em tempo quase real. Nos Estados Unidos, eles já fazem parte do repertório de muitas prefeituras há anos, e a chegada de ferramentas de inteligência artificial em linguagem natural os torna acessíveis a qualquer pessoa, do gabinete do prefeito aos supervisores de serviços nos distritos. Ainda assim, poucas cidades americanas conseguiram tirar seus gêmeos digitais da tela e levá-los ao centro das decisões do dia a dia.

O gargalo é de governança, não de tecnologia

Segundo o artigo que serve de base a este texto, a lacuna reflete mais a forma como as cidades se organizam do que a capacidade técnica disponível. Um gêmeo digital moderno depende de uma base sólida, que inclui dados governados, definições padronizadas, sistemas de informação geográfica como plataforma para fontes como sensores e modelagem de edificações, e ferramentas de IA acessíveis.

Além dessa base, a prefeitura precisa resolver questões que atravessam vários órgãos: quem é o dono do gêmeo, como as equipes centrais de tecnologia colaboram com os departamentos operacionais e onde ficam os especialistas em dados, geoprocessamento e processos. Também é necessário garantir supervisão humana sobre decisões orientadas por algoritmos, com auditorias regulares e comunicação clara com a população. Com frequência, as cidades param na integração técnica de dados e esquecem de conectar o gêmeo aos moradores que ele deveria servir.

O que a pesquisa acadêmica encontrou sobre os gêmeos digitais

O diagnóstico tem respaldo em estudos. Hossein Omrany, pesquisador da Universidade de Adelaide, na Austrália, concluiu que, apesar do avanço técnico, os gêmeos digitais urbanos falham justamente onde mais importa: quase nenhuma das implementações analisadas chegou aos processos de planejamento, tomada de decisão ou governança. Para reduzir essa distância, ele e seus coautores propõem uma abordagem batizada de planejamento urbano aumentado.

Raleigh e o poder das vitórias pequenas

Na Carolina do Norte, a cidade de Raleigh oferece um exemplo prático de como superar esse obstáculo. James Alberque, gerente de geoprocessamento e tecnologias emergentes do município, afirma que dados e tecnologia não são o verdadeiro entrave. Na experiência dele, o que segura a maioria das cidades, inclusive Raleigh, é a gestão da mudança: identificar os casos de uso certos e conquistar o apoio genuíno das áreas de negócio, algo que se constrói com confiança ao longo do tempo entre moradores, departamentos e equipe de tecnologia.

Parte desse trabalho consiste em divulgar ativamente os primeiros resultados, mesmo quando são pequenos. Segundo Alberque, o sucesso visível costuma ser o que gera o impulso para levar os gêmeos digitais de uma iniciativa de nicho a uma adoção mais ampla.

Em Raleigh, câmeras instaladas em ônibus fotografam cada ponto de parada ao longo da rota, e um modelo de visão computacional atribui uma nota à condição de cada ponto em relação a um limite definido. Uma nota insuficiente gera automaticamente uma ordem de serviço, de modo que a observação, e não a reclamação de um passageiro a um vereador, dispara o conserto. Em cruzamentos, a mesma lógica transforma vídeo ao vivo em contagens contínuas de veículos, substituindo estudos de uma semana feitos com mangueiras sensoras no asfalto.

Dados com privacidade em primeiro lugar

A cidade aplica aos dados que alimentam o gêmeo digital a mesma disciplina que adota na governança de dados em geral. A privacidade vem primeiro, e a classificação dos dados e as boas práticas de governança garantem que as informações certas cheguem às pessoas certas no momento certo. Raleigh também começou a explorar acordos de compartilhamento de dados com parceiros privados e universidades, com o objetivo de acessar capacidade e conhecimento que não existem internamente.

Três ingredientes para começar os gêmeos digitais

Perguntado sobre o que aconselharia a uma cidade que está começando, Alberque aponta três elementos: dados, tecnologia e pessoas suficientes para construir o gêmeo, liderança disposta a sustentar uma tecnologia emergente por tempo suficiente para provar seu valor, e departamentos dispostos a fazer as coisas de forma diferente e a se associar para resolver problemas reais. Cidades que reúnem esses elementos e mostram resultados cedo constroem a confiança necessária para levar um gêmeo digital de um piloto a uma iniciativa que cubra a cidade inteira.

O que isso ensina ao Brasil

Para municípios brasileiros, a experiência americana traz um aviso útil. Antes de contratar plataformas de visualização em três dimensões, vale definir quem será responsável pelo gêmeo, quais decisões ele vai apoiar e como os departamentos vão trabalhar juntos. Casos de uso simples, como priorizar a manutenção de pontos de ônibus ou medir o fluxo em cruzamentos, podem render resultados rápidos e visíveis, criando a confiança necessária para projetos mais ambiciosos como simulações de zoneamento e de mobilidade. A lição central é que o gêmeo digital só vale o que as decisões tomadas a partir dele.

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