IA: o que o Brasil pode aprender com o instituto de empregos de Nova York

por Grupo Editores Blog.

A inteligência artificial vai substituir servidores públicos ou transformar o trabalho que eles realizam? Uma iniciativa anunciada em Nova York ajuda a colocar essa discussão em outro patamar: em vez de apenas adotar ferramentas, o governo está investindo na preparação das pessoas que precisarão trabalhar com elas.

Em 22 de outubro de 2026, a governadora Kathy Hochul anunciou o AI Jobs Institute, um centro de formação que pretende capacitar até 40 mil nova-iorquinos até 2032. Instalado no Queens e operado pela organização sem fins lucrativos Pursuit, o instituto conectará qualificação profissional, empregadores, pesquisa e inovação. Sua proposta é ampliar o acesso às carreiras relacionadas à inteligência artificial, especialmente para pessoas frequentemente deixadas de fora da economia tecnológica.

Embora não seja uma iniciativa voltada especificamente ao funcionalismo, o projeto oferece uma referência para o debate sobre IA no setor público brasileiro: a modernização do Estado precisa incluir quem trabalha nele — e quem depende dos seus serviços.

O que é o AI Jobs Institute de Nova York?

O AI Jobs Institute nasce com quatro frentes: formação profissional, desenvolvimento de projetos e ferramentas, produção de pesquisas para orientar políticas de trabalho e articulação entre empresas, profissionais e instituições. A previsão é que a ocupação integral do novo espaço aconteça em meados de 2027. Portanto, os 40 mil participantes representam uma meta futura, não um resultado já alcançado.

Segundo o anúncio oficial, a iniciativa conta com investimento público total de US$ 10 milhões. Desse montante, US$ 3,06 milhões são destinados pela Empire State Development ao desenvolvimento do centro de formação em Long Island City. A operação será conduzida pela Pursuit, que combina capacitação com parcerias de longo prazo com empregadores.

A principal lição para o Brasil está nesse desenho: cursos não aparecem como ações isoladas, mas como parte de uma estratégia que conecta aprendizagem, oportunidades de trabalho e acompanhamento das mudanças tecnológicas.

No serviço público, uma adaptação desse modelo poderia aproximar escolas de governo, universidades e órgãos públicos em torno de problemas concretos. Em vez de ensinar apenas como conversar com um chatbot, a formação poderia preparar equipes para melhorar um atendimento, revisar um processo ou identificar riscos de uma contratação tecnológica.

A inteligência artificial vai acabar com os empregos públicos?

Não é possível concluir isso a partir das evidências disponíveis. O mais importante é distinguir a automação de tarefas da eliminação de ocupações inteiras.

Um estudo publicado pela Organização Internacional do Trabalho, em 2025, estimou que um em cada quatro trabalhadores no mundo está em uma ocupação com algum grau de exposição à IA generativa. A pesquisa aponta que a transformação dos empregos, e não sua substituição integral, é o efeito mais provável, porque a maioria das ocupações reúne tarefas que continuam exigindo participação humana. Funções de apoio administrativo estão entre as mais expostas. Esses números são globais: não constituem uma previsão específica para o funcionalismo brasileiro.

Essa distinção muda a pergunta que a administração pública precisa fazer. Em vez de “quantos servidores a tecnologia pode substituir?”, a discussão deveria começar por “quais tarefas podem ser melhoradas e como preparar as equipes para isso?”.

Como possibilidades de uso — e não como descrição de sistemas já implantados em todos os órgãos — estão:

  • Preparar versões preliminares de comunicados e documentos, com revisão responsável.

  • Resumir materiais extensos para apoiar a leitura técnica.

  • Organizar informações e auxiliar na identificação de inconsistências.

  • Apoiar respostas a dúvidas frequentes, com encaminhamento para atendimento humano.

  • Auxiliar análises de dados utilizadas no planejamento de serviços.

A própria formação oferecida pela Enap já contempla escrita assistida, pesquisa, análise de políticas públicas e otimização de rotinas, com verificação de fontes, proteção de dados e validação humana. O foco, portanto, não deve ser apenas produzir mais rápido, mas trabalhar com critérios de qualidade e segurança.

O Brasil já tem iniciativas de capacitação em IA para servidores

A experiência de Nova York encontra um Brasil que já iniciou esse caminho.

Em outubro de 2024, o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, a Escola Nacional de Administração Pública e o Serpro lançaram a trilha “Fundamentos e Aplicações da IA para o Agente Público”. Com carga horária de 112 horas, a formação reúne fundamentos, aplicações práticas, ética e privacidade de dados. Embora direcionada a agentes públicos, também é aberta aos cidadãos interessados.

A estrutura de formação da Enap inclui programas sobre ferramentas para o cotidiano, automação de processos e uso da IA por gestores. Segundo a instituição, os conteúdos disponíveis na Escola Virtual de Governo são gratuitos e atendem diferentes perfis, de usuários a lideranças e equipes técnicas.

O desafio seguinte é transformar acesso ao curso em capacidade institucional. Como proposta de gestão, isso significa reservar tempo de aprendizagem na jornada, oferecer ferramentas adequadas e acompanhar se o conhecimento está melhorando o serviço entregue à população.

Não basta contar certificados. É preciso observar se houve menos retrabalho, informações mais claras e maior capacidade de resolver demandas.

Inclusão digital também é uma questão de trabalho

A preocupação com uma nova desigualdade tecnológica antecede o lançamento do instituto. Em 2024, Angela Siefer, diretora-executiva da National Digital Inclusion Alliance, alertou que a inteligência artificial poderia produzir a próxima divisão digital. Entre os riscos discutidos estavam a falta de formação e a reprodução de desigualdades nos próprios sistemas.

Para a administração pública brasileira, o alerta permite enxergar duas dimensões do mesmo problema.

A primeira está dentro dos órgãos: uma estratégia de modernização precisa considerar servidores com diferentes formações, funções e condições de acesso às ferramentas.

A segunda está fora deles: a melhoria dos serviços não pode depender de que todo cidadão saiba utilizar uma interface de IA.

Uma política inclusiva deveria, por isso, combinar capacitação interna com linguagem simples, acessibilidade e atendimento assistido. A tecnologia precisa reduzir barreiras — não transferir ao usuário a obrigação de dominar um novo sistema para conseguir exercer seus direitos.

Mulheres e IA: por que a capacitação precisa ir além do acesso

As diferenças de uso também exigem cuidado na interpretação. Uma análise do Pew Research Center publicada em outubro de 2026 mostrou que 50% dos homens e 47% das mulheres nos Estados Unidos declararam já ter utilizado chatbots de IA. O próprio instituto considera semelhantes essas proporções. Entretanto, 22% dos homens e 15% das mulheres disseram ter muita ou extrema confiança no uso dessas ferramentas.

A pesquisa também identificou maior preocupação entre as mulheres: 33% esperavam impactos negativos da IA sobre suas vidas nos 20 anos seguintes, ante 27% dos homens. São dados norte-americanos e não devem ser apresentados como retrato das servidoras brasileiras. Ainda assim, ajudam a formular perguntas para programas de formação: quem participa, quem se sente seguro para experimentar e quais preocupações precisam ser ouvidas?

Uma resposta adequada não deveria tratar toda resistência como falta de conhecimento. Capacitar também significa criar espaço para questionar erros, vieses e usos inadequados.

Como preparar o setor público brasileiro para trabalhar com IA

A partir dessas experiências, uma agenda de preparação pode ser organizada em cinco prioridades:

  1. Mapear tarefas antes de escolher ferramentas. Identificar o problema do serviço e avaliar se a IA é realmente uma solução adequada.

  2. Diferenciar a formação por função. Quem atende o cidadão, administra contratos ou desenvolve sistemas precisa de competências distintas.

  3. Criar ambientes seguros de aprendizagem. Testar aplicações com regras claras e sem expor indevidamente informações pessoais ou sigilosas.

  4. Manter revisão e responsabilidade humanas. Definir quem verifica resultados, corrige falhas e responde pelo uso da ferramenta.

  5. Medir qualidade, não apenas velocidade. Acompanhar erros, retrabalho, acessibilidade e resolução das demandas.

Essas prioridades são uma proposta de aplicação ao contexto brasileiro. Elas convergem com a abordagem da Enap, que associa o uso profissional da IA à análise crítica, à verificação de evidências e à supervisão humana.

O futuro do trabalho público precisa ser construído

O AI Jobs Institute representa uma aposta de Nova York em preparar trabalhadores antes que as mudanças tecnológicas aprofundem desigualdades. Seus resultados ainda precisarão ser acompanhados, mas o projeto já apresenta um princípio relevante: formação profissional, pesquisa e oportunidades devem caminhar juntas.

Para o Brasil, a lição não é copiar um instituto estrangeiro. É conectar as iniciativas de capacitação já existentes à organização real do trabalho público, com participação dos servidores e atenção a quem utiliza os serviços.

A pergunta decisiva não é apenas o que a inteligência artificial consegue fazer. É como utilizá-la para que o Estado trabalhe melhor, sem deixar pessoas para trás.

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