No setor público, todo centavo precisa ser justificado. Um contrato que custa o dobro do previsto é um pesadelo político e financeiro. Por isso, uma mudança silenciosa na forma como os fornecedores de inteligência artificial cobram por seus produtos está gerando alarme entre gestores de tecnologia de governos americanos: a migração de preços fixos para modelos baseados em tokens.
Token é a unidade de dado processada por sistemas de IA. Cada pergunta que um servidor faz a um chatbot, cada documento analisado por um algoritmo, cada tarefa executada por um agente de IA consome tokens. E tokens custam dinheiro de forma variável, imprevisível e, para muitos gestores públicos, assustadora.
Economia dos tokens virou pesadelo
Robert Fulk, CIO do Escritório do Secretário de Estado de Indiana, viveu isso na prática. Um fornecedor vendeu à sua equipe uma solução de IA com preço fixo anual ilimitado. Na renovação do contrato, o modelo mudou para cobrança por token. “Ouvi histórias de terror”, disse Fulk. “Não posso ter meus custos multiplicados por dois porque de repente não estarei dentro do orçamento.”
A situação de Indiana não é isolada. O que os especialistas chamam de tokenomics (originalmente um conceito do mundo das criptomoedas, referente à estrutura econômica dos tokens como unidade de “combustível”) tornou-se um tema central na gestão de TI pública americana. E o problema não é apenas financeiro: é estrutural. Governos precisam prever gastos para o próximo ano fiscal. Custos variáveis e imprevisíveis não cabem facilmente nessa lógica.
Como os estados estão respondendo
Georgia, Colorado e São Francisco estão entre os governos que desenvolveram abordagens mais estruturadas para lidar com a tokenomics. Na Geórgia, o estado faz parceria com uma empresa especializada em visibilidade de consumo de IA e adotou um modelo baseado em personas funcionais: em vez de perguntar quanto está sendo gasto em um aplicativo específico, a pergunta passou a ser qual é o custo real para um resultado de negócio bem-sucedido. Cada agência tem um “campeão de IA” que monitora o uso no nível departamental.
“Governança financeira de IA é uma questão de responsabilidade”, disse Shawnzia Thomas, CIO da Geórgia. “Exige liderança organizacional e de TI, equipes jurídicas, de segurança e de comunicação. É necessário um quarterback para arremessar as passes para todos os outros membros da equipe.”
No Colorado, Sarah Tuneberg, CIO do estado, identificou uma diferença crucial entre a nuvem e a IA: com serviços de nuvem, o número de usuários é relativamente pequeno; com IA, a maioria dos servidores usa as ferramentas de alguma forma. Isso torna o modelo de distribuição por papel fundamental, com cada perfil de usuário tendo acesso apenas às ferramentas que precisa dentro dos limites orçamentários estabelecidos.
São Francisco adota uma postura que o CIO Michael Makstman resume num princípio simples: “Ninguém gosta de surpresas. Especialmente com dinheiro.” A cidade tem processos para estimar demanda antes de fechar contratos, trabalha com fornecedores com ênfase em transparência e monitora continuamente o consumo. “Temos que gerenciar o pool de forma muito responsável para que nenhum usuário, por mais entusiasmado que esteja, possa estourar o orçamento do seu departamento.”
Educação dos servidores vira arma contra consumo descontrolado
Uma das ferramentas mais eficazes contra o consumo excessivo de tokens é também uma das mais simples: treinar os servidores. John Matelski, da Associação Nacional de Condados, chama isso de defesa contra “consumo desenfreado de tokens”. Governos que já tinham programas de capacitação em IA responsável precisam adicionar uma camada específica sobre o impacto financeiro de cada tipo de interação com ferramentas de IA.
Jane Yang, principal diretora de arquitetura de IA do Colorado, usa o conceito de “senso de rua de IA”: uma compreensão prática de quando usar ferramentas de IA, quais usar para cada tarefa e como fazer isso de forma econômica. Isso é especialmente relevante para ferramentas de IA agêntica, que podem executar tarefas longas e complexas sem intervenção humana, e consumir grandes volumes de tokens sem que o usuário perceba.
O que os fornecedores precisam oferecer na economia dos tokens
A transição para modelos baseados em tokens está criando uma nova forma de competição entre fornecedores. O vetor de diferenciação, segundo os CIOs ouvidos, não é apenas funcionalidade ou preço: é previsibilidade e transparência. Fornecedores que conseguem mostrar o custo por token para implantações similares, usar outros órgãos públicos como referência e oferecer visibilidade granular sobre o consumo vão ganhar a confiança dos gestores públicos.
“O fornecedor que conseguir resolver o aspecto da previsibilidade vai ganhar confiança e provavelmente será o escolhido”, disse Matelski.
O que isso ensina para governos brasileiros
No Brasil, onde a adoção de IA no setor público ainda está nos estágios iniciais em muitos estados e municípios, a experiência americana com tokenomics é um aviso valioso. Governos que estão avaliando contratos de IA agora, antes de consolidar uma base de dados de consumo, precisam exigir previsibilidade nos contratos, preferir modelos de preço fixo ou com tetos claros, e construir estruturas internas de monitoramento antes de escalar qualquer ferramenta para centenas de usuários.
A economia dos tokens não vai desaparecer. O que vai determinar se ela se torna um problema ou uma oportunidade é a qualidade da governança financeira que cada governo coloca em torno do uso de IA desde o primeiro dia de adoção.

