Pedestres no Brasil: nenhuma capital tem calçadas adequadas e a nota média é reprovação

por Grupo Editores Blog.

Caminhar nas cidades brasileiras ainda é uma atividade de risco. Nenhuma capital do país apresenta condições plenamente adequadas para a circulação de pedestres e cadeirantes, segundo avaliações de campanhas e organizações especializadas em mobilidade urbana. Um levantamento da Mobilize realizado em 2019 atribuiu nota média de 5,71 numa escala de zero a dez às capitais brasileiras, abaixo do mínimo considerado aceitável.

No extremo inferior, Belém registrou cerca de 4,52. No extremo superior, São Paulo chegou a 6,93, ainda assim, uma nota de aprovação apenas razoável para uma metrópole com décadas de investimento em infraestrutura.

Retrato do IBGE confirma desigualdade

Os dados mais recentes do IBGE reforçam o diagnóstico. A Pesquisa Urbanística do Entorno dos Domicílios de 2022 mapeou indicadores como presença de calçadas, obstáculos nos passeios, existência de rampas para cadeirantes, iluminação, arborização e sinalização cicloviária em municípios de todo o país.

O padrão que emerge é de profunda desigualdade territorial: capitais e municípios de maior porte e maior PIB per capita concentram os melhores indicadores. A maior parte dos 5.570 municípios brasileiros apresenta infraestrutura insuficiente para deslocamento a pé.

No caso da infraestrutura cicloviária, o cenário é ainda mais precário: apenas 1,9% dos domicílios brasileiros têm equipamento especializado para ciclistas no entorno, segundo dados do Censo 2022, sinal de que o problema vai muito além das calçadas.

Problemas que se repetem por todo o país

Os problemas documentados em diferentes levantamentos são notavelmente parecidos independentemente da cidade: calçadas estreitas e irregulares, buracos e degraus que impossibilitam o uso de cadeiras de rodas e carrinhos de bebê, postes e outros obstáculos instalados sobre o passeio, faixas de travessia apagadas, semáforos ausentes ou programados com tempo insuficiente para travessia segura, falta de locais de descanso ao longo de percursos longos e iluminação inadequada em trechos de alta circulação.

Esses problemas não afetam todos os pedestres da mesma forma. Idosos, crianças, pessoas com deficiência e moradores de bairros periféricos enfrentam as piores condições, justamente porque têm menor acesso a alternativas de transporte e dependem mais do deslocamento a pé para acessar serviços essenciais. É nos arredores de escolas e postos de saúde, locais onde a presença de pedestres vulneráveis é maior, que a infraestrutura costuma ser pior.

Custo da infraestrutura que nunca foi construída

A ausência de calçadas adequadas tem consequências que vão além do desconforto. A falta de infraestrutura segura está associada ao aumento do risco de atropelamentos, que respondem por uma parcela significativa das mortes no trânsito brasileiro. O pedestre que caminha na rua porque a calçada está interrompida, ou que atravessa fora da faixa porque ela não existe, não está fazendo uma escolha: está respondendo a um ambiente que não foi projetado para ele.

Há também um custo econômico que raramente entra na conta pública. Infraestrutura de calçadas degradada eleva os gastos com acidentes, reduz a mobilidade de trabalhadores que dependem do deslocamento a pé e desestimula o comércio local em trechos onde caminhar é desagradável ou perigoso.

O que falta para mudar

A boa notícia é que o diagnóstico não falta: os dados existem, os problemas são conhecidos e as soluções técnicas são bem estabelecidas. O que falta, na maior parte dos municípios, é prioridade política e capacidade de execução.

Cidades que decidiram investir em calçadas e travessias seguras colheram resultados mensuráveis em segurança, mobilidade e qualidade de vida. O desafio para o Brasil não é descobrir o que fazer, mas criar as condições institucionais, financeiras e políticas para fazê-lo em escala, nos mais de cinco mil municípios que ainda esperam por um passeio que dê para caminhar.

 

FONTES

Fontes e onde aprofundar (leitura recomendada)

  • Relatório “Caminhabilidade nas cidades brasileiras” — Mobilize (levantamentos e metodologia para avaliar calçadas e travessias).

  • Matéria e levantamento da Mobilize / Agência Brasil sobre inadequação das calçadas nas capitais (2019) — dados por capital e problemas mais recorrentes.

  • Estudo analítico que usa PUED/IBGE 2022 com cobertura nacional (artigo RBAFS, 2026) — dados para 5.570 municípios e estratificações por porte/PIB/região.

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