Em 2011, quando o conceito de “smart city” ainda soava como ficção científica para a maioria dos gestores públicos brasileiros, um grupo de empreendedores no Paraná apostou que o futuro das cidades passava pela tecnologia. Quinze anos depois, o iCities é referência nacional no ecossistema de cidades inteligentes, com projetos que impactaram indiretamente mais de 1 milhão de cidadãos e 300 municípios em todo o Brasil. A história de como um hub curitibano colocou o país no mapa global da inovação urbana tem muito a ensinar, especialmente para capitais que ainda engatinham nessa transformação.
Uma ideia que nasceu antes do mercado existir
Quando Beto Marcelino fundou o iCities em 2011, o desafio não era técnico: era de vocabulário. “A essência do iCities sempre foi trazer a inovação para a melhoria da qualidade de vida das pessoas através da transformação urbana”, disse Marcelino ao G1. O problema era que poucos ainda sabiam o que isso significava na prática.
A solução encontrada foi educar antes de vender. Em 2012, nasceu o primeiro Fórum Internacional iCities, evento que durante quatro edições anuais funcionou como escola e vitrine ao mesmo tempo, apresentando o conceito de cidade inteligente para gestores que nunca tinham ouvido falar no assunto. “Como o mercado ainda não conhecia esse conceito, não havia outra maneira de disseminá-lo que não fosse dessa forma”, explicou ao G1 Caio de Castro, que chegou ao iCities em 2015 e hoje é CEO da empresa.
Não é muito diferente do que aconteceu em Medellín, na Colômbia, nos anos 2000. A cidade mais violenta do mundo na década anterior se reinventou apostando em inovação como política pública, e usou eventos e espaços de cocriação para construir o imaginário do que poderia se tornar. Hoje, Medellín é case obrigatório em qualquer discussão sobre transformação urbana no mundo. Curitiba, com o iCities, trilhou caminho parecido no campo institucional.
Da energia solar ao gêmeo digital: a evolução do conceito
O percurso de quinze anos não é apenas uma trajetória de crescimento empresarial. É também um espelho da própria maturidade do debate sobre cidades inteligentes no Brasil.
“Começamos com eventos, já tendo no radar soluções de energias renováveis e postes inteligentes com LED. Hoje, o foco evoluiu para uma inteligência muito maior, baseada em dados e análises complexas, como a implementação de digital twins”, contou Caio de Castro ao G1. Os gêmeos digitais, réplicas virtuais de cidades inteiras que permitem simular intervenções antes de executá-las no mundo real, já são realidade em Singapura e em Helsinki, na Finlândia. Desse modo, a capital finlandesa usa seu gêmeo digital para planejar expansões urbanas, avaliar impactos ambientais de novos edifícios e otimizar rotas de transporte público com décadas de antecedência.
Eduardo Marques, sócio-conselheiro do iCities, lembra que o interesse pelo tema nasceu ainda na faculdade de engenharia. “Eu estava muito incomodado com a forma como as coisas eram feitas e sempre busquei inovação nos processos. Quando visitei um evento sobre cidades inovadoras da FIEP, em 2010, percebi que o mundo da construção era muito maior e que poderíamos pensar as cidades de um jeito diferente”, contou ao G1. Para ele, a grande virada foi perceber que cidade inteligente não é sinônimo de tecnologia cara. “Hoje, os gestores entendem que cidade inteligente não é só tecnologia, é uma cidade que funciona, que oferece melhores serviços, que gera receita e reduz custos desnecessários”, afirmou.
O que Curitiba tem que outras capitais brasileiras ainda não encontraram
Curitiba não virou referência em inovação urbana por acaso. A cidade tem uma tradição de planejamento urbano que remonta aos anos 1970, quando Jaime Lerner implantou o sistema de ônibus BRT que inspirou cidades do mundo todo. Essa cultura de pensar a cidade como sistema, e não como conjunto de problemas isolados, criou terreno fértil para que iniciativas como o iCities florescessem.
O que outras capitais brasileiras podem aprender com isso? Primeiro, que o ecossistema importa tanto quanto a tecnologia. O iCities não é uma empresa de software, é um hub que conecta gestores públicos, empresas, universidades e organismos internacionais numa rede que amplifica o impacto de cada iniciativa individual. Segundo, que a capacitação precisa vir antes da solução. Ou seja, implantar uma plataforma de dados sem que os servidores saibam como usá-la é como distribuir instrumentos musicais sem aula de música.
Recife entendeu isso com o Porto Digital, polo tecnológico que transformou um bairro histórico degradado num dos ecossistemas de inovação mais relevantes do Nordeste. Fortaleza avança com iniciativas de governo aberto e dados públicos. Mas a maioria das capitais brasileiras ainda trata inovação como projeto pontual, não como política permanente de gestão, e é exatamente essa diferença de mentalidade que separa as cidades que inovam das que apenas experimentam.
A parceria de Curitiba com Barcelona e o salto internacional
Em 2018, o iCities firmou parceria com a Fira Barcelona, responsável pelo Smart City Expo World Congress, o maior evento de cidades inteligentes do mundo. Logo, o movimento posicionou o hub curitibano como porta de entrada do Brasil no debate global sobre urbanismo tecnológico. Desse modo, abriu conexões com experiências de Amsterdã, Tóquio e Seul que dificilmente chegariam ao país por outros canais.
Amsterdã, por exemplo, é referência em como usar dados de mobilidade para reduzir congestionamentos sem construir uma única estrada nova. Além disso, Seul integra sensores urbanos, aplicativos de transporte e alertas climáticos numa plataforma única acessível por qualquer cidadão com um smartphone. São experiências que podem parecer distantes da realidade de municípios brasileiros de médio porte, mas que têm princípios replicáveis, desde que haja alguém disposto a traduzir o que funciona lá para o que é possível aqui.
É esse papel de tradutor e conector que o iCities ocupa no ecossistema nacional. Além disso, explica por que uma empresa nascida em Curitiba conseguiu em quinze anos alcançar 300 municípios e um milhão de cidadãos sem precisar abrir escritório em cada um deles.
O futuro que já chegou, para quem quis ver
A história do iCities é também a história de um Brasil que foi aprendendo, a duras penas, que a transformação das cidades não espera por consenso político. Afinal, enquanto gestores debatiam se o tema era relevante, as cidades continuavam crescendo, os problemas se acumulando e as soluções, disponíveis.
Quinze anos depois da fundação do iCities, a pergunta que fica não é mais se as cidades brasileiras vão precisar de inteligência urbana. É se elas vão criar as condições para aproveitá-la antes que a janela de oportunidade se feche.

