Uma cidade americana acaba de dar um passo que pode parecer simples, mas representa uma mudança de lógica significativa no transporte público elétrico. Alexandria, na Virgínia, inaugurou dois carregadores de alta potência instalados diretamente no trajeto dos ônibus, permitindo que os veículos recarreguem enquanto os motoristas fazem suas pausas — sem precisar voltar ao depósito, numa lógica de recarga integrada à operação. A iniciativa acontece num momento em que o mundo acelera a transição dos ônibus urbanos para a tração elétrica, e o Brasil corre para não ficar para trás numa corrida que a China já venceu com ampla vantagem.
A inovação de Alexandria: carregamento sem desvio de rota
Os dois carregadores aéreos de 360 quilowatts instalados no West Alexandria Transit Center pela empresa de transporte DASH, que opera com tarifa zero para os passageiros, são os primeiros do tipo na região metropolitana de Washington DC e em todo o estado da Virgínia do Norte. A tecnologia permite estender a autonomia dos veículos, melhorar a utilização da frota e reduzir interrupções de serviço, segundo comunicado da Alexandria Transit Company.
“Este projeto reflete anos de planejamento e colaboração para apoiar nossa transição para uma frota totalmente elétrica”, disse Josh Baker, diretor-geral e CEO da DASH. “Como os primeiros carregadores elétricos de ônibus em rota no Norte da Virgínia e na região de DC, isso é um passo monumental em direção a um sistema de transporte mais limpo, silencioso e sustentável.”
Com 16 ônibus elétricos já em operação e outros 20 financiados e em processo de aquisição, Alexandria representa um modelo de expansão gradual e estruturada que outras cidades americanas vêm adotando. Segundo a organização Calstart, especializada em transporte limpo, mais de 8 mil ônibus de emissão zero já foram financiados, encomendados, entregues ou estão em circulação nos Estados Unidos, um crescimento de 16% em relação ao ano anterior.
O mundo tem 635 mil ônibus elétricos, e a China faz 60%
O cenário global é de aceleração consistente. O estoque mundial de ônibus elétricos chegou a 635 mil veículos, com a China respondendo por cerca de 60% das vendas, reflexo de uma política de eletrificação iniciada ainda na década passada. O mercado global de ônibus elétricos está projetado para crescer de 42,7 bilhões de dólares em 2026 para mais de 96 bilhões até 2034, impulsionado por avanços na densidade de baterias, no gerenciamento térmico e na infraestrutura de recarga rápida.
A Agência Internacional de Energia projeta que até 2035, 30% dos ônibus vendidos globalmente deverão ser elétricos, considerando apenas as políticas atuais. Esse percentual pode ser maior em cenários de compromissos mais ambiciosos de descarbonização, e cada ônibus elétrico em operação tem impacto equivalente a retirar centenas de automóveis individuais das ruas.
Brasil acelera, mas ainda sem metas nacionais
O Brasil vive um momento de expansão expressiva, mas ainda desequilibrada. São Paulo concentra mais de 80% da frota elétrica em circulação no país, com 1.259 ônibus movidos a energia limpa, evitando o consumo de 47,6 milhões de litros de diesel por ano e reduzindo em 109,5 mil toneladas as emissões anuais de CO₂. O programa paulistano foi reconhecido internacionalmente na COP30 com o prêmio Bloomberg Philanthropies na categoria de transporte limpo.
Até dezembro de 2026, o Brasil deve ultrapassar Chile e México e se tornar o país com a maior frota de ônibus elétricos da América Latina. A empresa Eletra, de São Bernardo do Campo, que fabrica 62% dos ônibus elétricos brasileiros, anunciou investimento de R$ 40 milhões para ampliar sua capacidade de produção de chassis elétricos de 1.800 para 3.000 unidades por ano a partir de 2026.
Mas o quadro nacional ainda tem lacunas importantes. O Brasil não definiu metas nacionais de eletrificação da frota de ônibus, e políticas locais surgem de forma fragmentada. Apenas seis das 25 cidades brasileiras com ônibus elétricos possuem frotas com mais de 10 veículos, e os obstáculos são conhecidos: custo de aquisição três a quatro vezes superior ao diesel, tempo de recarga entre uma hora e meia e quatro horas dependendo do modelo, e necessidade de fornecimento de energia em alta tensão nas garagens.
O que a inovação de Alexandria ensina sobre ônibus elétricos
O carregador em rota inaugurado em Alexandria aponta diretamente para um dos maiores gargalos da expansão dos ônibus elétricos no Brasil: a infraestrutura de recarga. Voltar ao depósito para recarregar consome tempo operacional e reduz a eficiência das frotas. Sistemas de carregamento estrategicamente instalados ao longo das rotas, como os de Alexandria, permitem recargas parciais durante as pausas dos motoristas, aumentando a autonomia efetiva dos veículos sem necessidade de investimento em baterias maiores e mais caras.
“É preciso de espaços bem localizados com uma estratégia de recarga bem desenhada para colocar esses ônibus para rodar de forma efetiva. Mas encontrar terrenos em áreas melhores para garagens nas grandes cidades é complicado”, aponta Clarisse Cunha Linke, diretora-executiva do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP Brasil).
Para cidades brasileiras como Curitiba, Salvador e Rio de Janeiro, que estão em fases iniciais de eletrificação de suas frotas, a lição de Alexandria é que o desafio não termina na compra dos ônibus. A infraestrutura de suporte, especialmente a recarga inteligente integrada ao planejamento das rotas, é o que determina se uma frota elétrica vai funcionar bem ou ficar parada esperando carga.
Artigo adaptado de smartcitiesdive.com

