A Copa de 2026 vai movimentar bilhões de dólares nas cidades norte-americanas que sediarão os jogos. Mas o que os números de impacto econômico raramente mostram é o que acontece com as comunidades que ficam para trás quando os holofotes se apagam.
A experiência de eventos anteriores revela que crescimento econômico e bem-estar dos moradores não caminham automaticamente juntos, e que a diferença entre os dois costuma se medir pela qualidade da comunicação e da transparência ao longo do processo.
Grandes eventos como aceleradores de mudança, e de riscos
Eventos esportivos de grande porte têm uma capacidade comprovada de desbloquear investimentos que cidades aguardam há anos. O Super Bowl de 2026 em San Francisco foi estimado em até 630 milhões de dólares de impacto econômico local. Salt Lake City pode gerar mais de 6,6 bilhões de dólares para o estado caso confirme as Olimpíadas de Inverno de 2034. A Copa de 2026, com dezesseis cidades-sede espalhadas pela América do Norte, entra nessa categoria com tudo o que ela traz de oportunidade, e de risco.
O problema é estrutural: grandes eventos comprimem os prazos de decisão e forçam agências públicas a coordenar em escala acelerada. Essas condições favorecem a aprovação de investimentos represados, mas também aumentam a probabilidade de mudanças de escopo e de custo que corroem a confiança pública. Quando os moradores percebem que o que foi prometido não corresponde ao que está sendo entregue, o legado do evento se torna a distância entre o discurso e a realidade.
O caso Atlanta e o que ele ainda ensina
Atlanta oferece uma das lições mais duradouras sobre o que pode dar errado quando grandes eventos guiam decisões urbanísticas sem ancoragem na realidade das comunidades afetadas. Primeira cidade dos Estados Unidos a inaugurar habitação pública federal, em 1936, Atlanta se tornou décadas depois a primeira a demolir sistematicamente seus conjuntos habitacionais em favor de empreendimentos privados de renda mista, em grande parte em preparação para os Jogos Olímpicos de 1996.
A estratégia foi apresentada como uma forma de desconcentrar a pobreza e modernizar o estoque habitacional, mas o resultado foi uma redução líquida nas unidades acessíveis disponíveis para os moradores de menor renda. Quando o discurso fala em revitalização, mas o efeito prático é a perda, esse descompasso se torna o verdadeiro legado do evento.
Copa de 2026 e a transparência que ainda não chegou
A Copa de 2026 já ilustra com clareza o que acontece quando a transparência não é incorporada ao processo antes de o evento começar. A FIFA exigiu que cada uma das dezesseis cidades-sede elaborasse um Plano de Ação em Direitos Humanos, identificando riscos para trabalhadores, moradores e grupos marginalizados. Com poucas semanas para o início da competição, a maioria das cidades ainda não havia divulgado seus planos.
Em Foxborough, Massachusetts, autoridades municipais descobriram em uma audiência pública que nem o comitê organizador local nem o próprio diretor de sede da FIFA conseguiam explicar de onde viriam os milhões de dólares necessários para a segurança local. Moradores e vereadores não estavam exigindo planos perfeitos, estavam pedindo visibilidade básica sobre decisões que afetariam diretamente suas comunidades.
Três práticas que mantêm a confiança pública
Com base em pesquisas sobre impacto coletivo e equidade racial em contextos de grandes investimentos, a Social Insights Research identificou práticas concretas que ajudam cidades a manter o alinhamento entre o que prometem e o que entregam.
A primeira é praticar transparência mesmo quando o plano muda. Algumas promessas feitas no início não sobrevivem ao contato com a realidade, e isso é esperado. O que importa é que os moradores consigam acompanhar o que está mudando e por quê, antes que a distância entre o prometido e o realizado se torne impossível de fechar.
A segunda prática é criar um sistema claro para comunicar mudanças. Comunidades precisam de uma forma de acompanhar o que está acontecendo sem precisar correr atrás de informações dispersas. O processo de orçamento participativo de Nova York é um bom modelo: desde 2012, moradores votaram em mais de 700 projetos de melhoria comunitária, totalizando mais de 210 milhões de dólares.
Quando os organizadores perceberam que votar em um projeto e vê-lo implementado eram duas coisas diferentes, criaram uma ferramenta pública de rastreamento para que qualquer pessoa pudesse acompanhar cada projeto financiado ao longo do tempo. Um estudo posterior confirmou que os bairros participantes apresentaram melhora mensurável no desempenho dos serviços públicos.
A terceira prática é documentar não apenas quando uma meta mudou, mas por quê. Sem esse registro, as comunidades não conseguem distinguir uma decisão tomada por necessidade de uma tomada por conveniência. Publicar a meta original, a revisão e o raciocínio por trás dela não exige perfeição, exige legibilidade. Quando as coisas mudam, a comunidade precisa conseguir se engajar com a mudança, não apenas absorvê-la.
O que está em jogo além dos estádios
A Copa de 2026 é uma oportunidade real para as cidades americanas. Mas transformar um evento temporário em prosperidade duradoura, que os moradores consigam de fato sentir, depende de uma decisão tomada cedo e mantida ao longo do tempo: tratar a confiança pública como um indicador de sucesso tão legítimo quanto o volume de turistas ou o total de receita gerada.
Artigo adaptado de smartcitiesdive.com

