Parques sempre foram valorizados como espaços de lazer e contato com a natureza, mas uma transformação profunda está em curso nas cidades que decidem levar a sério seu potencial. Nos Estados Unidos, no Canadá e em diversas outras metrópoles ao redor do mundo, parques estão sendo projetados para conter enchentes, capturar água da chuva, reduzir ilhas de calor, restaurar biodiversidade e criar laços comunitários em bairros historicamente negligenciados.
Para Tim Beatley, fundador da Biophilic Cities Network, os parques e espaços verdes urbanos estão entrando em uma era de ouro do design, e os projetos que surgem nesse momento têm muito a ensinar.
Novos modelos de financiamento tornam projetos ambiciosos viáveis
Um dos maiores obstáculos para a criação de parques de qualidade sempre foi o financiamento. A dependência exclusiva de orçamentos municipais limita o escopo e a velocidade dos projetos. Por isso, algumas cidades estão adotando modelos híbridos que combinam recursos públicos, fundos privados e geração própria de receita.
O Presidio, em São Francisco, é um dos exemplos mais antigos e bem-sucedidos desse modelo. Instalado numa antiga base do Exército ao pé da Ponte Golden Gate, o parque passou a ser administrado pelo Presidio Trust a partir de 1998, quatro anos após virar parque nacional. A estratégia foi restaurar os edifícios históricos do local com verbas federais e, em seguida, alugar esses espaços para gerar receita própria. Em 2024, os aluguéis produziram 182 milhões de dólares, recursos que sustentam toda a operação sem depender do orçamento da cidade.
Em Raleigh, na Carolina do Norte, o Dix Park segue caminho semelhante por meio de uma parceria público-privada. O município é dono e gestor do parque, enquanto a organização sem fins lucrativos Dix Park Conservancy capta recursos para financiá-lo. Para construir uma praça de lazer inaugurada em junho de 2025 (com mais de 110 mil novas plantas) a conservancy levantou um terço dos 70 milhões de dólares necessários. O restante veio de um fundo municipal de parques e de doações privadas.
Parques projetados para enfrentar o clima
A lógica dos parques modernos vai muito além da estética. Cidades que enfrentam enchentes, calor extremo e degradação ambiental estão incorporando infraestrutura climática diretamente no desenho dos parques, de forma que o verde e a função técnica se complementem.
Em Toronto, o Biidaasige Park nasceu de um projeto de 1,35 bilhão de dólares para renaturalizar o Rio Don e proteger o centro da cidade contra inundações. O parque não é apenas um espaço de convivência: ele ocupa uma nova ilha criada artificialmente durante as obras de desvio do rio, e toda a intervenção gerou um novo vale fluvial que transforma a dinâmica hídrica da região. A proteção contra enchentes foi o ponto de partida; o parque, a consequência mais visível.
No Dix Park, a praça de lazer também funciona como sistema de manejo de águas pluviais, captando e recirculando a água para irrigação. Além disso, a cidade planeja restaurar cerca de dois quilômetros e meio de margem de um riacho local, o que trará benefícios para o controle de cheias em toda a bacia a jusante.
Equidade como critério de projeto
Parques bem localizados e bem financiados costumam beneficiar quem já tem acesso a recursos. Romper esse padrão exige intenção deliberada desde a fase de concepção. O Tom Lee Park, em Memphis, no Tennessee, é um exemplo dessa abordagem.
Estendendo-se por cerca de dez quilômetros ao longo do Rio Mississippi no centro da cidade, o parque cruza os dez CEPs mais pobres do estado e oferece o primeiro caminho acessível para pessoas com deficiência conectando o centro ao rio, democratizando um espaço que antes era inacessível para grande parte da população.
No Dix Park, a acessibilidade é tratada como valor operacional, não apenas como promessa. O parque oferece transporte gratuito ou a baixo custo, estacionamento acessível e entrada sem cobrança, o que impacta a receita, mas é considerado essencial para manter o espaço verdadeiramente público.
O histórico do local (que já foi plantação, acampamento da Guerra Civil e hospital psiquiátrico) tornava necessário romper tanto as barreiras físicas quanto as psicológicas que afastavam moradores do lugar.
Participação comunitária como alicerce da legitimidade
Nenhum projeto de parque sustenta sua relevância no longo prazo sem o engajamento das pessoas que vivem ao redor. Em Memphis, mais de quatro mil moradores foram consultados e diversas oficinas foram realizadas em diferentes bairros durante o planejamento do Tom Lee Park. O resultado, segundo os responsáveis pelo projeto, é um parque que promove não apenas o bem-estar físico individual, mas também conexão social e emocional entre comunidades.
No Dix Park, mais de 65 mil moradores participaram da elaboração do plano diretor. Em Toronto, a equipe de comunicação do Biidaasige Park engajou o público durante toda a fase de construção, inclusive com uma campanha nas redes sociais protagonizada por Rocky, a escavadeira gigante usada para abrir o leito do novo rio. Hoje, a gestora do projeto coleta opiniões dos futuros moradores do bairro que está sendo construído ao redor do parque.
Parques que surgem desse processo tendem a ser mais resilientes, mais utilizados e mais capazes de cumprir seu papel como infraestrutura viva das cidades.
Texto adaptado de smartcitiesdive.com

