Olinda: museu a céu aberto que guarda 489 anos de história em cada ladeira

por Grupo Editores Blog.

Olinda é uma das poucas cidades brasileiras onde caminhar pelas ruas equivale a atravessar séculos de história. Fundada em 1535 por Duarte Coelho Pereira no ponto mais elevado da costa pernambucana, a cidade foi a segunda do Brasil a ser declarada Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO, em 1982, logo depois de Ouro Preto. Hoje, a poucos quilômetros de Recife, Olinda preserva um centro histórico que funciona como retrato vivo do que foi o Brasil colonial em seu auge.

Da fundação ao título de Lisboa pequena

A escolha do local de fundação não foi casual. Duarte Coelho buscava um ponto estratégico, elevado e com vista para o mar, capaz de proteger a futura vila e ao mesmo tempo facilitar o comércio. Em 12 de março de 1537, Olinda foi elevada a vila, tornando-se uma das primeiras cidades do país. Nos séculos XVI e XVII, a economia da cana-de-açúcar transformou a região no maior centro colonial do Nordeste, e Olinda se consolidou como a cidade mais rica do Brasil Colônia, ganhando o apelido de “Lisboa pequena”.

Essa riqueza não passou despercebida pelos holandeses, que invadiram a região durante o período das invasões neerlandesas. Entre 1624 e 1625, Olinda chegou a ser sede temporária do Brasil colonial. Mas em 1631, justamente por ser difícil de defender, a cidade foi saqueada e incendiada pelos invasores, num episódio que destruiu boa parte da arquitetura quinhentista original.

A reconstrução começou em 1654, após a expulsão dos holandeses, e Olinda voltou a ser capital de Pernambuco. Em 1676, foi elevada à condição de cidade com a construção da Diocese de Pernambuco, consolidando seu papel religioso e administrativo na região.

Um centro histórico de 1,2 quilômetro quadrado

O centro histórico de Olinda ocupa uma área compacta de 1,2 km², mas concentra cerca de 1.500 imóveis tombados pelo IPHAN, que reconheceu oficialmente seu valor patrimonial em 1968. Em 1980, a cidade foi declarada Monumento Nacional pela Lei 6.863, e em 14 de dezembro de 1982 recebeu o título de Patrimônio Mundial Cultural da UNESCO. Em 2006, Olinda foi escolhida como a primeira Capital Brasileira da Cultura, reforçando um reconhecimento que já era amplo entre historiadores e turistas.

A arquitetura local mistura influências coloniais portuguesas com elementos africanos e indígenas, criando um estilo que não se repete em nenhuma outra cidade brasileira. Casarões do século XVI convivem com azulejos dos séculos XVIII e XIX e construções neoclássicas do início do século XX. O traçado urbano é irregular, característico do urbanismo informal português, com edifícios construídos nos altos das colinas, garantindo vistas privilegiadas para o mar. Vinte igrejas barrocas espalhadas pela cidade exibem fachadas ornamentadas, esculturas em pedra e detalhes em ouro que resistiram ao tempo e às invasões.

Entre os marcos mais significativos está a Igreja do Carmo, construída em 1580 e considerada o primeiro templo da Ordem dos Carmelitas nas Américas. O Castillo de Duarte Coelho, erguido em 1535, foi a primeira casa-forte do Brasil, uma estrutura defensiva que antecede a própria consolidação da vila.

O berço da cultura pernambucana

Olinda não é apenas um conjunto arquitetônico preservado. É também o berço de manifestações culturais que definem a identidade pernambucana até hoje, como o frevo e o maracatu. Os famosos Bonecos Gigantes de Olinda, presença obrigatória no carnaval da cidade, transformam as ladeiras históricas em palco de uma festa que está entre as maiores do mundo. A tradição local de jovens molhando transeuntes com pistolas de água durante o carnaval é uma marca registrada que distingue a folia olindense de qualquer outra no país.

Do mirante da Sé, um dos pontos mais visitados da cidade, é possível avistar Recife em dias claros, uma vista que conecta visualmente as duas cidades e lembra que, apesar da proximidade geográfica, Olinda manteve uma identidade própria, distinta da capital pernambucana.

Um capítulo na história da independência

Olinda também guarda um marco pouco conhecido da história política brasileira. No Senado da Câmara de Olinda, em 10 de novembro de 1710, Bernardo Vieira de Melo deu o que é considerado o primeiro grito em prol da independência nacional, quase um século antes da independência formal do Brasil em 1822. O episódio, conhecido como Guerra dos Mascates, revela que o espírito de autonomia em relação a Portugal já fermentava entre os colonos pernambucanos muito antes do movimento que culminaria na separação definitiva.

Como Olinda vive hoje

Apesar de toda a carga histórica, Olinda é majoritariamente residencial. O casario colorido, os quintais arborizados e as espécies frutíferas trazidas pelos colonizadores portugueses convivem com o cotidiano de quem mora ali. Com 349.976 habitantes segundo o Censo de 2022 e um IDHM de 0,735, um dos melhores índices do litoral pernambucano, a cidade equilibra patrimônio histórico com vida urbana contemporânea.

O clima tropical úmido, com média anual de 26 graus, e a localização banhada pelos rios Beberibe e Paratibe completam o cenário de uma cidade que parece ter parado no tempo sem deixar de pulsar. Para quem visita Pernambuco, Olinda não é uma opção secundária a Recife: é um destino que conta, sozinho, séculos da história do Brasil.

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