À medida que governos em todo o mundo aceleram a adoção de inteligência artificial, drones, sensores urbanos e outras tecnologias emergentes, uma pergunta fundamental tende a ficar para trás: quem está no centro de tudo isso? Um ensaio recente publicado pelo IBM Center for The Business of Government propõe um modelo de governança que parte de uma premissa clara: tecnologia deve ser uma ferramenta a serviço do florescimento humano, não um fim em si mesma. E a diferença entre um bom e um mau uso dessas ferramentas não está na tecnologia em si, mas nas escolhas de design, implementação e prestação de contas que os governos fazem.
IA com revisão humana: o modelo que funciona
O ensaio parte de uma observação precisa: a chamada inteligência artificial geral ainda está longe de ser realidade, mas a inteligência humana aumentada por redes e ferramentas digitais já é. O desafio da governança é acelerar sistemas colaborativos entre humanos e IA que ampliem o julgamento humano em vez de substituí-lo.
Na prática, isso significa que sistemas de triagem de benefícios ou processamento de alvarás podem usar IA para identificar casos que merecem atenção especial, mas servidores treinados devem fazer as determinações finais com total transparência. O cidadão mantém o direito de falar com um ser humano capaz de exercer julgamento, considerar o contexto e explicar as decisões.
No nível estadual ou federal, o ensaio propõe a criação de comitês de revisão de IA com representação ampla da comunidade, avaliando cada nova implantação contra critérios explícitos: isso aumenta ou diminui a agência do cidadão? Há transparência? Existe recurso significativo? A opção não digital está preservada?
Serviços multimodais como política pública
Uma das propostas mais concretas do ensaio é o que chama de “arquitetura de escolha”: a garantia de que cidadãos sempre tenham múltiplos caminhos para interagir com o governo, e que nenhum seja tratado como inferior ao digital.
Isso significa manter escritórios físicos com funcionários suficientes como opções legítimas, e não apenas como alternativas de último recurso. Significa sistemas telefônicos que conectam a pessoas reais em tempo razoável. Significa interfaces digitais genuinamente acessíveis em diferentes dispositivos e para diferentes capacidades.
No nível de política pública, o ensaio propõe que estados adotem um “direito ao analógico”: a garantia de que qualquer interação com o governo possa ser completada por meios não digitais e não mediados por IA, para quem assim preferir. Não se trata de rejeitar a modernização, mas de garantir que ela não exclua quem não pode ou não quer usá-la.
Outro ponto relevante é a revisão das métricas de sucesso dos serviços públicos digitais. Eficiência operacional é importante, mas o ensaio propõe que métricas de empoderamento carreguem peso igual: o cidadão sente que tem controle significativo? Consegue recorrer de forma efetiva quando algo vai errado?
Governança por domínio, não por guarda-chuva
O ensaio critica a tendência de criar regulações tecnológicas genéricas que se aplicam igualmente a contextos muito diferentes. Drones, tecnologias biológicas, redes de sensores, robótica e tecnologias espaciais têm perfis de risco e oportunidade radicalmente distintos, e merecem abordagens específicas de governança.
Essa ideia de frameworks por domínio é especialmente relevante para o Brasil, onde marcos regulatórios para IA, drones e dados tendem a chegar tarde e de forma genérica. A lição do ensaio é que a especificidade permite que comunidades façam escolhas informadas baseadas em seus próprios valores e prioridades, em vez de aceitar ou rejeitar tecnologias em bloco sem entender suas implicações concretas.
Fluxo de conhecimento e parcerias para a complexidade
Duas outras propostas merecem atenção. A primeira é a criação de “equipes de fluxo de conhecimento” em governos locais, cuja função não é distribuir informação, mas curá-la, ajudando tomadores de decisão a focar no que realmente importa em vez de se afogar em dados. Na era da sobrecarga informacional, saber o que ignorar é tão importante quanto saber o que monitorar.
A segunda é o estímulo a parcerias público-privadas estruturadas em torno de problemas específicos, com representação de setor privado, academia, comunidade e servidores públicos. Nenhuma organização concentra todo o conhecimento necessário para lidar com a complexidade das tecnologias emergentes. A distribuição do expertise é uma resposta inteligente a um problema genuíno.
Tecnologia é amplificador
O fio condutor de todo o ensaio é uma convicção que parece óbvia, mas frequentemente se perde nas discussões sobre modernização tecnológica do setor público: “Quase todas as tecnologias por si mesmas são neutras. É como escolhemos desenvolvê-las e implantá-las que determina os bons ou maus resultados para nós, nossas organizações e nossas sociedades.”
Para gestores públicos brasileiros que enfrentam a pressão de modernizar sem perder de vista quem os serviços públicos existem para servir, esse enquadramento é um antídoto útil contra dois erros opostos: o entusiasmo tecnológico que ignora o impacto humano, e o conservadorismo que rejeita a inovação por medo do que não conhece. O caminho é entre os dois, com intenção, critérios claros e o lado humano sempre no centro.
Artigo adaptado de businessofgovernment.org

