Quando Boston confirmou que sediaria sete partidas da Copa do Mundo de 2026, os gestores municipais pensaram em logística, mobilidade e infraestrutura. O que não esperavam é que o torneio também fortaleceria a cibersegurança da cidade. Greg McCarthy, CISO (Chief Information Security Officer) de Boston desde 2014, conta que o maior legado de segurança digital do evento foi a rede de colaboração que ele ajudou a construir.
A rede que a Copa criou
Durante o torneio, McCarthy passou a se comunicar regularmente com seus colegas CISOs das outras cidades-sede, que se espalhavam por três países: Estados Unidos, Canadá e México. As chamadas periódicas entre os responsáveis pela segurança digital de todas as jurisdições anfitriãs incluíam troca de informações sobre indicadores de campanhas maliciosas, ameaças identificadas e incidentes confirmados em cada cidade.
A rede foi além dos municípios. O time de cibersegurança da FIFA, o Multi-State Information Sharing and Analysis Center e a New Jersey Cybersecurity and Communications Integration Cell também participaram das chamadas, contribuindo com orientações que ajudaram o torneio a chegar ao fim sem nenhum incidente cibernético de grande escala.
Para McCarthy, que é cofundador da Coalition of City CISOs, a experiência reforçou algo que ele já defende há anos: a segurança digital de cidades não é um problema que se resolve em isolamento. A troca de inteligência entre pares é um dos ativos mais valiosos que um gestor de segurança pública pode construir — e a Copa acelerou esse processo de forma que dificilmente teria acontecido em circunstâncias normais.
O que Boston gerencia por dentro
A escala das operações de cibersegurança de Boston ajuda a entender por que a coordenação é tão importante. A equipe de McCarthy tem cerca de 26 membros e é a única equipe completa de cibersegurança em toda a cidade, responsável por aproximadamente 26.000 identidades de força de trabalho ativa, cobrindo operações municipais, segurança pública, escolas e bibliotecas.
“Cobrimos operações tradicionais de cibersegurança, gestão de identidade e acesso tanto para nossa força de trabalho quanto para nossos moradores e empresas, e a função mais nova da equipe é nossa função de conformidade e auditoria de risco”, disse McCarthy. A equipe funciona como o único provedor integral de cibersegurança para toda a administração pública municipal.
O projeto de segurança tecnológica que McCarthy mais aguarda
Apesar de toda a agenda de segurança interna, o projeto que mais entusiasma o CISO de Boston é voltado para fora: o programa de gestão de identidade e acesso para cidadãos. Iniciado no final de 2024, o projeto pretende criar um login unificado para cada morador ou empresa, substituindo a profusão de credenciais diferentes que hoje são necessárias para acessar serviços distintos da prefeitura.
A ideia é que um pai que precisa matricular o filho na escola, um morador que quer acessar serviços da biblioteca ou um contribuinte que vai pagar impostos usem o mesmo perfil digital, com pré-preenchimento automático de formulários e uma experiência consistente. O projeto inclui uma funcionalidade de “direito ao esquecimento”, que permite ao usuário solicitar a exclusão dos dados armazenados.
McCarthy reconhece que centralizar dados exige também definir com cuidado o que deve e o que não deve ser coletado. A equipe está examinando o processo de coleta de dados antes de expandir o número de serviços integrados à plataforma, que ainda está em estágio inicial.
IA é oportunidade e também é risco
O CISO de Boston descreve sua relação com a inteligência artificial como cautelosa. Desde 2023, a cidade vem desenvolvendo padrões e políticas para o uso de IA, paralelamente a pilotos em casos de uso específicos. A assistência a desenvolvedores de código provou ser valiosa, mas a cidade continua avaliando os ganhos de produtividade em relação aos custos, ao impacto ambiental e às preocupações de segurança.
“Não há muitos controles técnicos eficientes no momento para proteger contra, digamos, exfiltração de dados via IA ou inserção de dados inadequados em modelos públicos”, disse McCarthy. A ausência de salvaguardas técnicas maduras é o principal fator que torna o gestor prudente na adoção em larga escala.
Ainda assim, McCarthy vê potencial no uso de IA para a própria cibersegurança. Boston está participando do programa de defesa cibernética da Anthropic para entidades estaduais, locais, tribais e territoriais, que oferece créditos para usar modelos de IA na identificação de vulnerabilidades e na sua remediação. A cidade usará as ferramentas para conduzir avaliações de segurança em seu código-fonte.
O que outras cidades podem aprender
A trajetória de Boston com a Copa do Mundo oferece uma lição que vai além da cibersegurança: grandes eventos criam oportunidades de construir redes de colaboração que sobrevivem ao evento e geram valor permanente. Cidades que recebem megaeventos sem aproveitar esse potencial de conexão institucional estão desperdiçando um dos legados mais duradouros e menos custosos que esses eventos podem deixar.
Para gestores de tecnologia e segurança digital em cidades brasileiras, a experiência de Boston também aponta para uma realidade que precisa ser enfrentada: times enxutos com responsabilidades enormes precisam de parcerias externas ativas, seja com outros municípios, com o governo federal ou com organizações especializadas. A segurança tecnológica de uma cidade não começa nem termina na própria equipe de TI.
Adaptado de govtech.com

