Todo mundo já perdeu um arquivo importante por não ter feito backup. Imagina perder uma cidade. É esse raciocínio que está por trás de um dos projetos urbanos mais inusitados já discutidos no mundo: o Japão estuda a criação de uma cópia funcional de Tóquio, a ser construída a cerca de 450 quilômetros a oeste da capital, para garantir que o país não pare em caso de um grande desastre natural.
A ideia de uma cidade reserva
O conceito foi batizado de IRTBBC: Integrated Resort Tourism, Business and Backup City, ou, em tradução livre, Cidade de Recursos Integrados de Turismo, Negócios e Backup. A proposta é criar uma réplica dos principais pontos e funções de Tóquio que possa assumir o papel da capital caso um terremoto, tsunami ou outro desastre de grande escala comprometa a operação da metrópole original.
A construção demandaria cerca de 200 mil trabalhadores e representaria um dos maiores projetos de infraestrutura urbana da história recente. Por enquanto, a iniciativa ainda está no campo das discussões e do planejamento preliminar, mas o raciocínio que a sustenta é sólido: o Japão é um dos países mais sísmicos do mundo, e Tóquio é uma das maiores concentrações de população, infraestrutura econômica e funções governamentais do planeta. A dependência de um único polo urbano nessa escala é uma vulnerabilidade real.
Por que o Japão quer um backup de cidade
O Japão tem uma relação única com desastres naturais. O país registra cerca de 20% de todos os terremotos de magnitude superior a 6 que ocorrem no mundo por ano. A memória do grande terremoto de Kanto, em 1923, que matou mais de 100 mil pessoas e destruiu grande parte de Tóquio e Yokohama, e do terremoto e tsunami de 2011 no Tohoku, que além de matar quase 20 mil pessoas provocou a crise nuclear de Fukushima, está incorporada no planejamento governamental japonês de uma forma que poucos países conseguem reproduzir.
A ideia de uma cidade backup não é apenas sobre reconstrução após um desastre. É sobre continuidade de governo, de economia e de serviços essenciais durante e imediatamente após uma catástrofe. Se Tóquio ficasse inacessível ou inoperante, o Japão precisaria de algum lugar para continuar funcionando.
O conceito de resiliência urbana que está por trás
A ideia de uma cidade backup pode parecer extrema, mas ela é apenas a versão mais radical de um conjunto de estratégias de resiliência urbana que cidades e países ao redor do mundo estão desenvolvendo com crescente urgência.
A Coreia do Sul construiu Sejong City, parcialmente como uma forma de descentralizar funções governamentais que estavam excessivamente concentradas em Seul. A Indonésia está transferindo sua capital de Jacarta, em processo acelerado de afundamento, para Nusantara, na ilha de Bornéu. A Malásia construiu Putrajaya como nova capital administrativa. Em todos esses casos, a concentração excessiva em um único ponto urbano foi reconhecida como um risco que precisava ser endereçado por meio de planejamento territorial deliberado.
A diferença do conceito japonês é que ele vai além da descentralização administrativa: propõe literalmente uma cópia funcional que pode ser ativada em caso de emergência, como um sistema de failover aplicado a uma cidade.
O que o backup de cidade diz sobre o futuro do planejamento urbano
A discussão sobre backup de cidade levanta questões que vão bem além do Japão. À medida que eventos climáticos extremos se tornam mais frequentes e intensos, que terremotos, tsunamis e outros desastres continuam a ameaçar grandes concentrações populacionais, e que a dependência de cidades únicas para funções críticas aumenta em todo o mundo, a pergunta que o projeto japonês faz em voz alta vai se tornar inevitável para outros países: o que acontece com nosso país se nossa cidade mais importante parar de funcionar?
Para o Brasil, onde São Paulo concentra uma parcela desproporcional da atividade econômica nacional e onde cidades costeiras e ribeirinhas enfrentam riscos climáticos crescentes, a resposta a essa pergunta ainda não existe de forma clara. Planos de contingência existem para eventos específicos, mas uma estratégia territorial de longo prazo que pense resiliência na escala de cidades inteiras ainda é uma discussão que mal começou. O Japão, como de costume quando se trata de gestão de riscos, está chegando lá primeiro.
Artigo adaptado de Estadão

