Há um paradoxo no centro da modernização tecnológica do setor público: os processos de compra criados para proteger o valor público frequentemente trabalham contra a inovação que aumentaria esse valor. Um contrato rígido com entregas fixas e prazos inflexíveis empurra o fornecedor para o caminho da menor resistência, entregar uma solução tecnicamente conforme, mas não necessariamente transformadora. Identificar e resolver esse paradoxo é, segundo pesquisa com diretores de tecnologia de governos americanos, uma das alavancas mais subutilizadas da transformação digital pública.
O dilema entre grandes e pequenos fornecedores
O setor público tende a confiar em grandes fornecedores de tecnologia por razões que fazem sentido: eles entendem os processos de compra governamentais, têm escala para contratos de nível empresarial e oferecem soluções que já provaram funcionar em ambientes públicos. Esses são ativos reais.
Mas vêm com uma desvantagem estrutural. Grandes fornecedores têm forte incentivo para sustentar os sistemas existentes, já que seus modelos de receita frequentemente giram em torno do que o governo já tem, não do que poderia ter. E as arquiteturas que eles constroem tendem ao monolítico: soluções complexas e integradas que favorecem a estabilidade em detrimento da flexibilidade.
“As organizações públicas têm aquela tecnologia modular e adequada à finalidade que querem adotar. Mas isso não se realiza facilmente com as grandes plataformas”, disse um CIO de governo entrevistado para a pesquisa que embasa este artigo.
Startups e fornecedores novos no mercado governamental operam com outra lógica. Trazem capacidades emergentes de IA, aprendizado de máquina e análise de dados. Conseguem se mover mais rápido, experimentar com mais facilidade e trazer perspectivas novas para problemas antigos. Mas o processo de contratação pública é terreno desconhecido para muitos deles, e a volatilidade típica do ciclo de vida das startups pode tornar difícil sustentar contratos de vários anos até a conclusão.
Um entrevistado descreveu uma frustração recorrente: “Contratamos um fornecedor menor, ele faz algum trabalho. Talvez não consiga terminar tudo dentro do contrato, e agora estamos trazendo outro fornecedor e começando do zero.” Esse padrão tem um custo real e evitável, em conhecimento institucional perdido e descontinuidade de projetos.
Contrato como alavanca de transformação
A estrutura do contrato é um dos instrumentos mais subestimados da transformação digital no setor público, e um dos que o governo está mais bem posicionado para modificar.
Contratos de preço fixo com entregas rígidas e prazos duros criam um ambiente onde o fornecedor tem pouco espaço para adaptar, aprender e ajustar o curso conforme o projeto avança. “Com um contrato de preço fixo, o integrador de sistemas precisa entregar até uma certa data. Por causa disso, ele não vai ser flexível e não vai apoiar o objetivo da organização de se transformar”, disse outro CIO entrevistado.
Contratos baseados em resultados, onde os fornecedores são avaliados pelo desempenho em relação a objetivos de serviço em vez de pela entrega de funcionalidades específicas, criam espaço para a adaptabilidade e a iteração que iniciativas digitais complexas precisam para funcionar. Essa abordagem é conhecida, amplamente recomendada em relatórios técnicos do setor, e ainda assim segue subutilizada na prática.
Construir um ecossistema, não gerenciar uma lista de fornecedores
A abordagem mais eficaz vai além da escolha entre grandes e pequenos fornecedores. Ela cria as condições para que os dois tipos contribuam de formas complementares.
Plataformas de dados abertas que permitem que múltiplos fornecedores construam sobre uma base compartilhada, ambientes de sandbox e laboratórios de inovação onde empresas menores podem prototipar soluções com risco controlado, e uma mentalidade que trata os fornecedores como extensão da equipe interna em vez de como prestadores externos são os elementos que, combinados, criam um ecossistema de inovação sustentável.
Um CIO da Virgínia descreveu seu modelo: “Eu os vejo como uma extensão da minha equipe. Dependemos deles para trazer expertise e administrar a infraestrutura. Temos 300 funcionários de núcleo, mas cerca de mil contratados. Seguimos os processos e requisitos contratuais, mas uma vez que estão dentro, os tratamos como membros da equipe.”
O que isso significa para a contratação pública no Brasil
O paradoxo identificado pela pesquisa americana é reconhecível em qualquer sistema de compras públicas que prioriza preço e conformidade formal sobre capacidade de entrega e resultado. No Brasil, a Lei de Licitações e os processos de pregão eletrônico foram construídos para evitar corrupção e garantir igualdade de competição, objetivos legítimos. Mas a rigidez que esses objetivos impõem frequentemente inviabiliza contratos baseados em resultados, parceiros inovadores menores e a flexibilidade que projetos de transformação digital precisam.
A discussão que está acontecendo nos Estados Unidos sobre contratos baseados em resultados, ecossistemas de fornecedores e modelos de engajamento mais colaborativos é a mesma que o setor público brasileiro precisará ter se quiser que sua modernização tecnológica produza transformação real, e não apenas sistemas novos que fazem as mesmas coisas dos sistemas antigos com tecnologia mais cara.

