E-bikes, ou bicicletas elétricas, são bicicletas equipadas com um motor elétrico que auxilia a pedalada, reduzindo o esforço físico necessário para cobrir distâncias maiores, enfrentar subidas ou simplesmente chegar ao destino sem suar. Elas não substituem a pedalada humana: o motor entra como apoio, e o ciclista ainda precisa pedalar para que o sistema funcione. O resultado é um meio de transporte que combina o que a bicicleta tradicional tem de melhor, flexibilidade, custo baixo, ausência de emissões, com uma capacidade de deslocamento muito maior.
Em sistemas de compartilhamento urbano, as e-bikes são disponibilizadas em estações espalhadas pela cidade, onde usuários podem desbloquear uma unidade por períodos curtos, fazer o trajeto e devolver em outra estação. É esse modelo que está transformando a mobilidade em algumas das maiores cidades do mundo.
Da curiosidade à infraestrutura de transporte
O que começou como uma alternativa nicho ao transporte público convencional está chegando a números que surpreendem especialistas em mobilidade. Em Chicago, o sistema de compartilhamento de bicicletas e patinetes Divvy, operado pela Lyft, registrou quase 7 milhões de viagens em 2025 e deve superar 8 milhões em 2026. David Powe, comissário assistente do Departamento de Transportes de Chicago, foi direto ao descrever o sistema: “Provavelmente o quarto maior sistema de transporte do nordeste de Illinois.”
Em Nova York, a Citi Bike registra um volume de viagens comparável ao do trem PATH, que conecta Nova Jersey a Manhattan. Em São Francisco, o Lyft Bike poderia figurar como o sétimo maior operador de transporte público da região. “Os números de uso são comparáveis ao transporte público, o que é bastante notável”, disse Laura Krull, gerente sênior de política de transporte e micromobilidade da Lyft Urban Solutions.
Toronto sustenta o terceiro maior sistema de bike-sharing dos Estados Unidos e Canadá. Em 2025, foram realizadas 7,8 milhões de viagens de micromobilidade apoiadas pela Lyft na cidade. O plano é chegar a mais de 24 mil pontos de ancoragem até 2030, com 3.000 docas de carregamento adicionais para cerca de 15 mil bicicletas.
Por que as e-bikes crescem mais rápido do que as bicicletas convencionais
O crescimento da micromobilidade nas cidades reflete vários fatores que se reforçam mutuamente. A maturidade do mercado é um deles: sistemas que existem há mais de uma década já percorreram a curva de aprendizado sobre onde instalar estações, como precificar o serviço e como manutenção deve funcionar.
Mas o fator mais importante é a popularização das e-bikes especificamente. A assistência elétrica transforma a bicicleta compartilhada num modal viável para um perfil muito mais amplo de usuários, incluindo quem antes achava as distâncias longas demais, o calor excessivo ou as subidas proibitivas. Para penduradores e commuters, a e-bike resolve o problema mais prático da bicicleta convencional: chegar ao destino sem precisar trocar de roupa.
Outro fator relevante é a integração com o transporte público. Cerca de 81% dos usuários de micromobilidade dizem usar o serviço para chegar ou sair de um ponto de transporte público, segundo dados da Lyft. Em Toronto, as novas estações de bike-sharing são deliberadamente localizadas próximas a estações de metrô, trem leve e outros pontos de conexão. “Para garantir que estamos criando uma jornada conectada que encontra o cliente onde ele quer ser encontrado”, explicou Matthew Varsava, diretor de bike-share de Toronto.
Estratégia de preço que fez Chicago crescer
Parte do sucesso de Chicago tem a ver com uma decisão que vai na contramão do mercado: enquanto tudo ficava mais caro, o Divvy ficou mais barato. A cidade e a Lyft decidiram congelar a anuidade em 143 dólares a partir de 2024 e manter esse preço até pelo menos janeiro de 2027. Novos membros e quem havia saído do sistema recebem uma anuidade introdutória de 99 dólares.
Desde o lançamento da oferta introdutória, mais de 12 mil residentes se inscreveram e outros 19 mil renovaram a anuidade padrão. O sistema também eliminou a taxa de desbloqueio em “áreas de prioridade de equidade”, regiões com baixo acesso a mobilidade e histórico de desinvestimento. “Enquanto tudo o mais ficou mais caro, o Divvy ficou mais barato para a maioria das pessoas”, disse Powe.
O que cidades brasileiras podem aprender
No Brasil, os sistemas de bike-sharing existem em diversas capitais, mas ainda operam numa escala muito inferior ao que Chicago, Nova York e Toronto demonstraram ser possível. A comparação entre o Divvy e o quarto maior sistema de transporte de uma metrópole americana é um dado que deveria provocar gestores de mobilidade urbana a pensar de forma diferente sobre esses sistemas.
As lições mais diretas são sobre integração e acessibilidade de preço. Sistemas de micromobilidade que ficam em ilhas, sem conexão clara com o metrô, os ônibus e as ciclovias existentes, dificilmente vão além do uso recreativo. E sistemas com preços que só fazem sentido para quem já tem renda confortável nunca vão se tornar infraestrutura de transporte de verdade. O que Chicago provou é que subsidiar o preço para trazer mais usuários pode transformar um sistema de nicho num modal de massa, com impacto real na mobilidade da cidade.

