Toda política pública começa com uma escolha que raramente é debatida abertamente: quem define o problema e quem define a solução. Na maior parte das vezes, a resposta é o próprio governo, que diagnostica, planeja, implementa e depois tenta convencer a população de que a decisão foi acertada. O modelo funciona para algumas questões. Para as mais complexas, especialmente aquelas que envolvem confiança, polarização e coesão social, ele falha de forma previsível.
Uma abordagem diferente está ganhando corpo em governos ao redor do mundo, e o Centro William D. Ruckelshaus, de Washington State, nos Estados Unidos, tem documentado por décadas o que a distingue: uma mentalidade colaborativa, que trata comunidades não como receptoras passivas de decisões, mas como participantes ativas na construção delas.
O que é, na prática, uma mentalidade colaborativa
A mentalidade colaborativa começa com uma crença: as melhores soluções para problemas complexos vêm das comunidades, não do topo da hierarquia. Isso não significa que o governo abdica de seu papel ou que toda decisão vira assembleia. Significa que os processos de engajamento são projetados para capturar perspectivas reais, incorporar feedback genuíno e adaptar as soluções conforme a realidade vai se revelando.
Em termos práticos, isso se traduz numa postura de escuta ativa antes de qualquer proposta, abertura para adaptar o rumo conforme o processo avança e disposição para co-criar soluções com quem será afetado por elas. Em vez de processos rígidos e verticalizados, o engajamento público se torna uma parceria iterativa entre governos e cidadãos.
Essa abordagem encontra respaldo nos princípios do governo ágil: adaptabilidade, abertura e capacidade de responder a retroalimentação. O que a diferencia da participação pública convencional, muitas vezes reduzida a audiências protocolares onde as decisões já estão tomadas, é o comprometimento real com a influência que a comunidade pode exercer sobre o resultado.
O Projeto para a Saúde Cívica de Washington State
Um exemplo concreto de como essa mentalidade se traduz em ação é o Projeto para a Saúde Cívica, conduzido em parceria entre o Centro Ruckelshaus, o Escritório do Vice-Governador de Washington, a Escola de Políticas Públicas da Universidade de Washington e a Fundação Jackson.
O projeto nasceu de uma observação do Vice-Governador Denny Heck: a polarização no estado estava no nível mais alto já registrado, e a saúde cívica da comunidade estava em risco. Em vez de encomendar um diagnóstico técnico e desenvolver soluções a partir dele, Heck fez uma escolha reveladora: saiu para ouvir. Percorreu o estado numa série de reuniões com comunidades locais para entender como as pessoas percebiam a situação, antes de qualquer proposta.
“Enquanto sabia que havia um problema, o vice-governador também sabia que as soluções mais fortes viriam das comunidades, e não de cima para baixo”, descreve o relato do projeto. Essa distinção, entre saber que há um problema e presumir que você também sabe a solução, é o núcleo da mentalidade colaborativa.
Os aprendizados da escuta se tornaram o relatório “Common Ground for the Common Good”, que sinalizou ao público que o governo estava interessado em ouvir em vez de prescrever. O relatório abriu caminho para uma cúpula de saúde cívica realizada em outubro de 2023, que reuniu cerca de 200 lideranças civis e eleitas de todo o estado para gerar perspectivas adicionais e co-criar soluções. A diversidade de participantes, incluindo representantes eleitos, lideranças comunitárias e grupos de interesse com visões diferentes, foi deliberada: ambientes que valorizam perspectivas distintas tendem a produzir políticas mais inovadoras e eficazes.
Por que isso importa para o setor público brasileiro
No Brasil, o padrão dominante de elaboração de políticas ainda é amplamente verticalizado. Planos diretores, políticas de mobilidade, programas habitacionais e reformas tributárias são frequentemente desenvolvidos por equipes técnicas e consultores, apresentados em audiências públicas com prazos curtos e sem mecanismos reais de incorporação de contribuições. O resultado é previsível: baixa adesão, implementação resistida e perda de legitimidade.
A experiência de Washington aponta para algo que pesquisas em administração pública confirmam há décadas: políticas co-criadas com as comunidades afetadas têm maior chance de implementação bem-sucedida, menor resistência e maior durabilidade. Não porque sejam necessariamente melhores do ponto de vista técnico, mas porque as pessoas se sentem parte do processo e não apenas objeto dele.
Para gestores públicos brasileiros que lidam com questões de confiança institucional, especialmente num contexto de crescente desconfiança em relação ao governo em todas as esferas, a mentalidade colaborativa é também uma estratégia política. Governos que ouvem antes de decidir, que adaptam suas propostas com base no que aprendem e que garantem canais reais de participação constroem o capital social que torna a governança possível nos momentos difíceis.
Adotar essa mentalidade não exige recursos extraordinários. Exige, antes de tudo, uma mudança de postura: de quem chega com a solução pronta para quem chega com a pergunta certa.
Artigo adaptado de businessofgovernment.org

