Prefeituras e inteligência artificial: só 1 em cada 10 usa IA, mas os resultados já impressionam

por Grupo Editores Blog.

Das mais de cinco mil prefeituras brasileiras, apenas uma em cada dez utiliza alguma solução de inteligência artificial na gestão municipal. O dado foi apresentado no segundo semestre de 2025 durante audiência da Comissão de Ciência, Tecnologia e Inovação da Câmara dos Deputados e revela uma lacuna expressiva entre o potencial da tecnologia e sua adoção real no setor público.

Ainda assim, onde a IA já está em operação, os resultados apontam para reduções de até 30% nas despesas operacionais e ganhos de produtividade de até 40% em processos automatizados, números que colocam em perspectiva o quanto os municípios ainda têm a ganhar.

Três frentes que estão transformando a gestão municipal

Para Ramon Lummertz (em entrevista à CNN), gerente de tecnologia da Betha Sistemas, empresa especializada em soluções para o setor público, a adoção de IA nas prefeituras tem se consolidado em torno de três eixos principais: modelos preditivos, ferramentas de Processamento de Linguagem Natural (PLN) e soluções de IA generativa. Cada uma dessas frentes atende a necessidades distintas da administração municipal e, juntas, ampliam significativamente a capacidade analítica e operacional das equipes públicas.

Lummertz avalia que essas aplicações “ampliam a capacidade de análise do setor público e apoiam decisões mais estratégicas”, uma mudança de lógica relevante para prefeituras que historicamente operam de forma reativa, respondendo a problemas já instalados em vez de antecipá-los.

Modelos preditivos: prefeitura age antes do problema

Entre as três frentes, os modelos preditivos são os que mais avançam nas prefeituras atualmente. Com base na análise de grandes volumes de dados, essas ferramentas permitem ao poder público antecipar situações que demandariam atenção tardia, e muitas vezes mais cara.

Na educação, os sistemas cruzam informações como frequência, histórico escolar e padrões de comportamento para identificar, com maior antecedência, alunos em risco de evasão. Isso permite que equipes pedagógicas intervenham antes que o abandono ocorra, tornando as políticas de permanência escolar mais eficazes e direcionadas.

No setor tributário, a tecnologia tem sido aplicada à estimativa do valor real de imóveis utilizados como base de cálculo do ITBI (Imposto sobre a Transmissão de Bens Imóveis), reduzindo inconsistências nas avaliações e fortalecendo o controle fiscal sem depender exclusivamente de fiscalizações manuais.

PLN no atendimento e na organização documental

O Processamento de Linguagem Natural está mudando tanto a relação das prefeituras com os cidadãos quanto os processos internos das equipes. No atendimento direto à população, chatbots integrados ao WhatsApp e a outros canais digitais ampliam o acesso a serviços como consultas de débitos, emissão de guias e abertura de solicitações, sem exigir que o morador vá pessoalmente a uma repartição ou aguarde em filas telefônicas.

Internamente, o PLN tem sido usado para organizar o vasto acervo documental das administrações municipais. A tecnologia é capaz de ler, classificar e extrair informações de leis, pareceres e processos administrativos, agilizando rotinas que antes consumiam horas de trabalho manual. Além disso, o processamento automatizado melhora a recuperação de dados históricos, facilitando auditorias, fiscalizações e consultas técnicas, tarefas que ganham em velocidade e rastreabilidade.

IA generativa é suporte ao servidor público

A inteligência artificial generativa chega às prefeituras por uma porta menos óbvia: o apoio às atividades cotidianas dos servidores. Professores têm utilizado a tecnologia para acelerar a elaboração de planos de aula, adaptando conteúdos com mais agilidade às necessidades de suas turmas. Na área da saúde, equipes se beneficiam de resumos automáticos de prontuários e de alertas sobre possíveis interações medicamentosas.

Esse uso interno da IA generativa representa uma mudança prática no cotidiano dos servidores, liberando tempo para atividades que exigem julgamento humano e contato direto com a população, justamente aquelas em que a tecnologia ainda não substitui a presença qualificada do profissional público.

Principal obstáculo: dados ruins e fragmentados

Apesar dos avanços concretos, Lummertz aponta que o maior entrave para a ampliação da IA nas prefeituras não é tecnológico. O problema central é a baixa qualidade e a fragmentação das bases de dados municipais. Sem informações bem estruturadas, conectadas entre si e alimentadas de forma consistente, os modelos de inteligência artificial perdem precisão e o potencial das soluções fica comprometido.

Esse diagnóstico revela que a jornada da maioria das prefeituras em direção à IA ainda precisa começar antes da tecnologia em si: pela organização dos dados que ela precisará processar. Para os municípios que ainda não deram esse primeiro passo, investir na estruturação de bases de dados qualificadas é tanto um pré-requisito técnico quanto uma decisão estratégica de gestão, sem a qual qualquer solução de IA terá alcance limitado, independentemente do seu potencial.

 

Texto adaptado de CNN.com

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