Uma associação sem fins lucrativos de gestores financeiros do governo americano decidiu criar uma startup. A lógica pode parecer contraditória, mas é exatamente o tipo de movimento híbrido que o setor de govtech precisa: a Government Finance Officers Association (GFOA) dos Estados Unidos e do Canadá lançou a GovFi, uma empresa com fins lucrativos que funciona como laboratório de inovação, aceleradora de tecnologia e desenvolvedora de software ao mesmo tempo, com foco exclusivo nos problemas que os próprios gestores de finanças públicas enfrentam no dia a dia.
Startup traz modelo diferente para um problema persistente
O mercado de tecnologia para o setor público tem um problema clássico: empresas desenvolvem soluções sem entender profundamente o contexto operacional, regulatório e político em que os gestores públicos trabalham. O resultado são produtos que impressionam em demonstrações, mas que falham na implementação real.
A GovFi foi criada para inverter essa lógica. Seu modelo de trabalho tem quatro etapas: validar os problemas diretamente com os gestores financeiros do governo; desenvolver soluções para esses problemas internamente ou em parceria com empresas de tecnologia; testar as soluções em ambientes governamentais reais antes de escalar; e investir nas soluções que funcionam com capital, suporte e parcerias.
“Construir tecnologia útil para o governo exige mais do que uma boa ideia ou uma demonstração impressionante”, disse James Ha, presidente do conselho e CEO interino da GovFi. “Queremos ajudar os desenvolvedores a entender o problema cedo, testar com as pessoas que vão usar a solução e estabelecer uma forma prática de entregá-la e dar suporte. É assim que transformamos ideias promissoras em valor duradouro.”
Ha traz cerca de 20 anos de experiência no setor de govtech, com passagens por empresas como eCivis, Euna Solutions e Civio.ai.
Quem está por trás da iniciativa
A liderança da GovFi reúne perfis que cobrem os lados técnico, de negócios e de governo. O diretor de inovação Shayne Kavanagh é gerente sênior de pesquisa da própria GFOA, o que garante conexão direta com a base de conhecimento da associação. Rachel Stern, vice-presidente do conselho, é fundadora da GovTech Ventures, com experiência em investimentos no setor. Mike Freeman, membro do conselho, é CEO da Innosphere Ventures.
Dois membros do conselho são gestores financeiros em exercício de cidades americanas: Jason Greene, CFO de Miami Beach, na Flórida, e David Schmiedicke, diretor financeiro de Madison, no Wisconsin. Essa composição é estratégica: as pessoas que decidirão se vão adotar as soluções desenvolvidas pela GovFi estão sentadas na mesma mesa onde as soluções são planejadas.
Como funciona na prática
A GovFi está ativamente solicitando dois tipos de contribuição. De um lado, quer receber desafios reais de gestores financeiros do governo, problemas concretos que ainda não têm solução tecnológica adequada. De outro, está avaliando empresas de tecnologia que querem ter seus produtos testados e validados em contextos governamentais reais, com acesso à rede da GFOA como banco de potenciais usuários e parceiros.
Esse modelo de ponte entre problema e solução é, em essência, o que distingue a GovFi de uma startup comum. Em vez de partir de uma tese de produto e tentar convencer o governo de que precisa dele, a empresa parte do problema declarado pelo próprio governo e trabalha para desenvolvê-la de dentro para fora.
O que essa startup resolve
Gestores financeiros de governos locais e estaduais lidam com um conjunto específico de desafios que raramente aparecem nos roadmaps das grandes empresas de tecnologia: reconciliação de dados entre sistemas legados que não se comunicam, previsão de fluxo de caixa em ambientes de receita variável e incerta, conformidade com regulações que mudam por estado e por tipo de entidade pública, e auditabilidade de processos que precisam resistir ao escrutínio público.
Resolver esses problemas exige entendimento profundo do contexto, que é exatamente o que a GFOA tem acumulado desde que foi fundada, há mais de um século. Transformar esse conhecimento num mecanismo de desenvolvimento de produtos tecnológicos testados e validados é a aposta da GovFi.
Para o Brasil, onde a distância entre o que as fintechs e empresas de govtech oferecem e o que os tesoureiros municipais precisam de fato ainda é grande, o modelo é uma referência. Iniciativas que partem dos problemas reais dos gestores públicos, com validação de quem vai usar a solução antes de escalar, têm muito mais chance de produzir tecnologia que funciona na prática do que as que chegam prontas de fora para dentro.

