A expansão dos carros elétricos promete reduzir a poluição e ampliar as opções de transporte. Mas colocar veículos nas ruas é apenas parte do desafio. Sem pontos de recarga, infraestrutura adequada e regras claras, projetos de mobilidade sustentável podem ficar parados por anos.
Uma experiência nos Estados Unidos mostra como a burocracia pode atrasar até iniciativas aparentemente simples. Na Universidade Estadual da Califórnia em Dominguez Hills, sete carregadores levaram quase quatro anos para entrar em operação. A história traz lições importantes para gestores públicos brasileiros e para o planejamento das cidades inteligentes.
Carros elétricos enfrentam obstáculos antes mesmo de circular
O projeto nasceu de uma necessidade concreta. Muitos estudantes percorriam longas distâncias de ônibus para chegar às aulas e ao trabalho. Nos horários de pico, veículos lotados dificultavam os deslocamentos e provocavam atrasos.
A universidade decidiu criar um programa de compartilhamento de veículos. A proposta inicial previa sete carros elétricos e sete estações de recarga, em parceria com a Toyota.
O problema apareceu quando a equipe avaliou a capacidade elétrica do campus. A rede existente não suportava sequer um carregador de nível 2, usado para recargas mais lentas que as dos sistemas rápidos.
A solução exigia investimentos, ajustes técnicos e acordos com diferentes instituições. O que parecia uma instalação simples virou um processo longo.
Burocracia e infraestrutura atrasam a mobilidade elétrica
A equipe buscou apoio no programa Charge Ready, da concessionária Southern California Edison. A iniciativa ajudaria a superar obstáculos técnicos e financeiros.
O pedido foi apresentado em agosto de 2022. A aprovação veio, mas ainda faltava superar etapas administrativas dentro da universidade e do sistema estadual de ensino superior.
Os carregadores só começaram a funcionar em 2 de setembro de 2026. Foram quase quatro anos entre a solicitação e a operação.
Apesar da demora, o resultado superou o plano inicial. O programa passou a contar com 43 veículos elétricos e híbridos. A estrutura, que previa sete carregadores, foi ampliada para 200 pontos.
O caso mostra que projetos bem-sucedidos exigem mais do que equipamentos modernos. Planejamento, capacidade elétrica, financiamento e coordenação institucional são igualmente importantes.
Carros elétricos também dependem de custos sustentáveis
A instalação dos carregadores não é o único desafio. Manter serviços de mobilidade compartilhada também exige recursos para seguros, manutenção e operação.
Na Califórnia, representantes de projetos comunitários apontaram o seguro como uma barreira importante. Em algumas iniciativas analisadas, o seguro dos automóveis representava cerca de 29% dos custos operacionais.
Para frotas de bicicletas elétricas compartilhadas, essa participação variava entre 15% e 60%.
Esses gastos podem inviabilizar projetos menores, mesmo quando existe demanda. Por isso, especialistas defendem exigências de seguro proporcionais ao tamanho da frota e aos riscos envolvidos.
A proposta busca evitar que regras criadas para grandes operações impeçam iniciativas comunitárias de funcionar.
O que as cidades brasileiras podem aprender
No Brasil, ampliar a presença dos carros elétricos também exige planejamento integrado. Prefeituras precisam avaliar a capacidade da rede, os locais de instalação e os custos de manutenção.
A cooperação entre governos, concessionárias, universidades e empresas pode acelerar os resultados. Contratos claros e responsabilidades bem definidas ajudam a evitar atrasos.
Outra medida importante é incluir a recarga nos projetos de novos empreendimentos, estacionamentos públicos e corredores de transporte. Antecipar essas necessidades pode reduzir reformas futuras e gastos extras.
Nas cidades inteligentes, a mobilidade elétrica precisa estar ligada ao acesso da população. Programas de compartilhamento podem beneficiar estudantes, trabalhadores e moradores com poucas opções de transporte.
Mobilidade sustentável exige execução, não apenas anúncios
A experiência americana deixa uma mensagem direta: anunciar carregadores é muito mais fácil do que colocá-los em funcionamento. Sem planejamento técnico, recursos e coordenação, boas ideias podem perder anos.
Para gestores municipais, o desafio é transformar metas ambientais em serviços reais. Isso significa antecipar obstáculos, simplificar processos e acompanhar cada etapa dos projetos.
Os carros elétricos representam uma oportunidade para modernizar o transporte. Mas a transição só ganhará escala quando a infraestrutura acompanhar a tecnologia e atender às necessidades das pessoas.

