TI na gestão municipal: quais cargos vão mudar mais com a inteligência artificial

por Grupo Editores Blog.

Quatro diretores de tecnologia de governos estaduais americanos foram perguntados sobre qual função de suas equipes terá o rosto mais diferente daqui a cinco anos. As respostas, colhidas na conferência da Associação Nacional de CIOs Estaduais, em Filadélfia, revelam algo mais amplo do que uma mudança de cargo: apontam para uma reconfiguração de como o trabalho de TI na gestão pública funciona de ponta a ponta.

Desenvolvimento de software: a função que ninguém sabe como vai ser

O CIO de Dakota do Norte, Corey Mock, foi direto: “A única função que não consigo te dizer como vai ser daqui a cinco anos é provavelmente nossa divisão de aplicações de negócios, justamente por causa da IA.”

O raciocínio parte de duas mudanças em curso. A primeira é a migração estratégica dos governos de desenvolvimento interno para soluções prontas e SaaS, reduzindo a dependência de equipes que constroem sistemas do zero. A segunda é ainda mais disruptiva: à medida que a geração de código deixa de ser uma habilidade técnica especializada e passa a ser algo que um bom prompt e uma ferramenta estabelecida conseguem fazer, o papel do desenvolvedor muda de executor para estrategista. “Como incluímos a IA nessa função? Como estruturamos isso para sermos ágeis o suficiente para fornecer soluções rápidas com essa tecnologia, mas também pensando à frente o suficiente para que qualquer solução construída seja escalável e possa ser atualizada sem virar dívida técnica praticamente no segundo dia?”, pergunta Mock.

Quando o campo e o back-end se encontram

Bry Pardoe, CIO da Pensilvânia, oferece uma perspectiva diferente: em vez de apontar uma função específica, ele enxerga uma transformação que atravessa todas elas. “Os desenvolvedores sempre viveram num silo muito específico de execução e geração de código. Pesquisa e design de experiência do usuário são termos novos, mas adjacentes ao que um analista de negócios sempre fez.”

O que a IA torna possível, segundo Pardoe, é fechar a distância entre quem pensa nos serviços no campo e quem os implementa no back-end. “As pessoas lá fora pensando em design e entrega de serviços agora podem fazer protótipos rápidos e informar como esses modos de trabalho precisam chegar ao back-end para entrega e execução. Há partes e pedaços do nosso modelo operacional que vão mudar fundamentalmente.”

A leitura de Pardoe é que a mudança não é numa posição isolada, mas num fio condutor que passa por todas elas: a IA aproxima quem projeta de quem executa, tornando o ciclo entre ideia e implementação mais curto e menos dependente de intermediários técnicos.

Cibersegurança: mais rápido ou fora do jogo

Rex Menold, diretor de segurança digital do Michigan, foi o mais específico sobre a urgência da mudança na área de cibersegurança. “A IA vai mudar como fazemos desenvolvimento de aplicações. Se você não está usando IA para geração de código, provavelmente vai começar a ficar para trás. Ou, no mínimo, não vai conseguir acompanhar a demanda.”

Mas o impacto mais crítico, na visão de Menold, está na segurança: “Não vamos mais revisar logs manualmente. Vamos ter ferramentas que conseguem analisar essas coisas muito, muito mais rápido.” A velocidade de resposta a vulnerabilidades também vai mudar radicalmente. “Temos que patchear no dia seguinte depois de encontrarem vulnerabilidades. Não podemos ser N mais cinco.”

A imagem de Menold é a de uma equipe de cibersegurança que deixa de ser reativa para ser preditiva, capaz de agir no mesmo ritmo em que as ameaças evoluem, algo que não é possível com monitoramento humano sem suporte de IA.

O que isso significa para a TI na gestão pública brasileira

As três perspectivas convergem num ponto: a IA não vai eliminar funções de TI no setor público, mas vai mudar o que cada função faz, como as pessoas colaboram e qual a expectativa de velocidade e qualidade de entrega. Quem se adaptar ganhará capacidade de fazer mais com os mesmos recursos. Quem não se adaptar ficará preso em ciclos de trabalho manual que as ferramentas disponíveis já tornaram desnecessários.

Para prefeituras e secretarias de TI brasileiras, o diagnóstico americano é um espelho válido. A maioria dos governos municipais ainda opera com equipes de desenvolvimento que constroem e mantêm sistemas legados sem uma estratégia clara de migração para soluções modernas. As funções de experiência do usuário, quando existem, raramente dialogam com quem implementa os sistemas. E a cibersegurança ainda depende fortemente de processos manuais que a escala das ameaças atuais já tornou insuficientes.

A pergunta que os CIOs americanos estão fazendo, que funções vão mudar mais e como se preparar para isso, é a mesma que gestores de TI municipal no Brasil precisam começar a fazer antes que a resposta chegue por meio de um sistema desatualizado que ninguém mais consegue manter.

 

Texto adaptado de govtech.com

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