Pedestres morrem mais nas cidades americanas do que em qualquer outro país rico

por Grupo Editores Blog.

Em 76 das 101 maiores regiões metropolitanas dos Estados Unidos, a taxa média de mortes de pedestres entre 2020 e 2024 foi pior do que no período anterior, de 2015 a 2019. Os dados são do relatório mais recente da Smart Growth America e da National Complete Streets Coalition, divulgado nesta semana, e pintam um quadro preocupante: o país com a maior frota de automóveis per capita do mundo também lidera o ranking de mortes de pedestres entre nações de renda similar.

Um problema que 72% de crescimento não disfarça

As mortes de pedestres nos Estados Unidos aumentaram 72% desde 2009. Houve uma queda nos anos mais recentes, especialmente durante a pandemia, mas a presidente e CEO da Smart Growth America, Beth Osborne, foi categórica ao comentar o dado: “Vimos uma queda em relação ao recorde histórico. Isso é uma regressão à média. Não vale a pena comemorar.”

A comparação entre os dois períodos analisados pelo relatório confirma o diagnóstico. Das 101 maiores áreas metropolitanas estudadas, apenas 18 registraram redução nas taxas de mortalidade de pedestres e sete mantiveram os números estáveis. As outras 76 pioraram, num universo que representa a maior parte da população urbana americana.

As cidades mais perigosas para caminhar

As cinco áreas metropolitanas com maior taxa de mortalidade de pedestres estão todas no chamado cinturão do sol americano, região que concentra cidades do sul e sudoeste do país. Memphis, no Tennessee, lidera com uma taxa anual média de 5,5 mortes por 100 mil habitantes, o número mais alto já registrado desde que o estudo começou a ser produzido, em 2009. Em seguida aparecem Albuquerque (Novo México), Bakersfield-Delano (Califórnia), Tucson (Arizona) e Baton Rouge (Louisiana).

A concentração geográfica não é coincidência. “Os lugares mais perigosos para pedestres são predominantemente encontrados no sul do país, cidades desenvolvidas após a introdução do automóvel de uso pessoal”, explicou Heidi Simon, diretora de Comunidades Prósperas da Smart Growth America. O modelo urbano dessas regiões foi pensado para carros, não para pessoas a pé, com avenidas largas, ausência de calçadas, travessias escassas e distâncias entre destinos que tornam o deslocamento a pé inviável para a maioria dos moradores.

Desigualdade no risco de morrer caminhando

O relatório também evidencia que o risco não é distribuído de forma igualitária entre os pedestres. Com uma taxa média nacional de 2,15 mortes por 100 mil habitantes, as pessoas negras são vítimas em uma proporção 1,7 vez maior do que a média. A disparidade reflete padrões históricos de urbanização que concentraram infraestrutura precária e baixo investimento em mobilidade ativa exatamente nos bairros com maior população negra e de baixa renda.

Em termos geográficos, o Novo México registrou a maior taxa estadual, com 4,42 mortes de pedestres por 100 mil residentes, número que coloca o estado em patamar muito acima da média nacional e entre os piores do hemisfério ocidental.

O financiamento federal que estava mudando esse cenário

Por anos, programas federais de infraestrutura para pedestres e ciclistas funcionaram como o principal instrumento para que cidades pudessem financiar calçadas, faixas de travessia, ciclovias e outros elementos que tornam o deslocamento a pé mais seguro. O Programa de Investimento em Infraestrutura de Transporte Ativo, criado pela lei de infraestrutura de 2021, era um desses mecanismos.

Esse programa foi cortado no BUILD America 250 Act, aprovado em maio de 2026 pelo Comitê de Transporte e Infraestrutura da Câmara dos Representantes, segundo análise da Union of Concerned Scientists. Antes disso, o governo Trump já havia cancelado o financiamento para infraestrutura de bicicletas e pedestres previsto na legislação anterior, conforme reportagem do Stateline de março de 2026.

“Estamos vendo uma linguagem da administração dizendo que infraestrutura para ciclistas e segurança de pedestres não é uma prioridade”, afirmou Osborne. O BUILD America 250 Act mantém o programa Safe Streets and Roads for All, mas o escopo reduzido preocupa especialistas que acompanham o tema.

Um problema americano, mas com lições universais

A taxa de mortes de pedestres nos Estados Unidos é a mais alta entre os 34 países comparáveis analisados no relatório, num grupo que inclui outras nações ricas da Europa, América do Norte e Oceania. “Este é um problema tipicamente americano”, disse Osborne. “Se você perguntar à maioria dos nossos líderes de transporte, a única coisa que eles tentam resolver é o congestionamento, não a segurança.”

O argumento aponta para uma prioridade equivocada que não é exclusiva dos Estados Unidos. Cidades que projetam sua infraestrutura para maximizar a velocidade e o volume de veículos acabam produzindo espaços urbanos hostis para quem caminha, especialmente para grupos mais vulneráveis. Reverter esse quadro exige tanto investimento em infraestrutura física quanto uma mudança de mentalidade sobre o que significa uma cidade bem-sucedida: não aquela em que os carros andam rápido, mas aquela em que as pessoas chegam com segurança.

Você também pode se interessar por:

Deixar um Comentário