Texto adaptado de smartcitiesdive.com
Entre agosto de 2024 e julho de 2025, agências de trânsito, municípios americanos continuaram expandindo frotas de ônibus zero-emissão, superando crescimento do período anterior.
Números da Calstart (grupo nacional de defesa de transporte limpo):
Total de ZEBs (Zero-Emission Buses) de tamanho completo:
- 8.116 financiados, encomendados, entregues ou em operação
- Crescimento de 16% sobre ano anterior
- Projeção até 2030: Quase dobrar para 15.600
Mas há incerteza no horizonte.
Revisão de política federal em julho de 2025 permite que agências mudem propostas de “zero emissões” para “baixas emissões”, incluindo:
- Ônibus híbridos-elétricos
- Ônibus a propano
- Ônibus a gás natural comprimido
“Mudanças na política federal e financiamento podem impactar o rollout”, adverte Calstart.
O que são ZEBs (zero-emission buses)
Ônibus de zero emissões:
- 100% elétricos a bateria (Battery-Electric Buses – BEB)
- Elétricos a célula de combustível (Fuel Cell-Electric Buses – FCEB) movidos a hidrogênio
Tamanho completo: 30 pés (~9 metros) ou mais
Diferença de ônibus “baixas emissões”:
- Híbridos: Combinam motor elétrico + diesel/gás
- Propano/GNC: Combustíveis fósseis “mais limpos”, mas não zero
Matemática do crescimento
Evolução anual
2023-2024: ~7.000 ônibus 2024-2025: 8.116 ônibus (+16%) Projeção 2030: 15.600 (+92% em 5 anos)
Distribuição por tipo
Baterias elétricas: Maioria esmagadora Células de combustível (hidrogênio): Minoria, mas crescendo rapidamente
“Equilíbrio entre bateria-elétricos e célula de combustível-elétricos permanece relativamente consistente”, afirma Mike Hynes, diretor adjunto de trânsito da Calstart.
Ônibus menores
ZEBs pequenos (paratransit, shuttles, on-demand):
- 1.400 nos EUA
- Apenas 9 movidos a célula de combustível
Aeroportos:
- 342 ônibus zero-emissão (todos os tamanhos)
- Shuttles de passageiros e funcionários
Liderança estadual
Top 4 estados
1. Califórnia: 2.623 ônibus (32% do total nacional) 2. Nova York: Não especificado, mas segundo lugar 3. Washington: Terceiro 4. Flórida: Quarto
Maiores adições (2024-2025)
- Califórnia
- Washington
- Indiana (surpresa, estado tradicionalmente conservador)
- Wisconsin
“Estados que mantêm incentivos previsíveis e caminhos de financiamento estarão melhor posicionados para continuar escalando adoção”, diz Hynes.
Como foram financiados
Programas federais
1. FTA Low or No Emission Grant Program (Programa de Grants de Baixa ou Zero Emissão)
2. Grants for Buses and Bus Facilities Program (Grants para Ônibus e Instalações)
Ambos financiados pelo Infrastructure Investment and Jobs Act de 2021 (Lei de Investimento em Infraestrutura e Empregos).
Recursos: Dezenas de bilhões de dólares alocados entre 2021-2026.
Mudança crítica de julho 2025
Revisão federal permite que agências mudem propostas de:
- “Zero emissões” → “Baixas emissões”
Consequência: Dinheiro que iria para 100% elétricos pode ir para híbridos ou gás natural.
Preocupação da Calstart: “Impacto completo das mudanças de financiamento federal ainda está emergindo, mas é claro que financiamento estadual estável, programas de vouchers e investimentos em infraestrutura serão chave para manter projetos avançando”.
Desafios persistentes
1. Capacidade limitada de manufatura nos EUA
Problema: Poucos fabricantes de ônibus elétricos em solo americano.
Principais:
- Proterra (faliu em 2023, reorganizada)
- BYD (chinesa, fábrica na Califórnia)
- New Flyer (canadense, fábricas nos EUA)
- Gillig
Resultado: Filas de espera longas.
2. Disponibilidade limitada de fornecedores
Baterias, motores elétricos, componentes vêm majoritariamente da China.
Tarifas, tensões geopolíticas complicam cadeia de suprimentos.
3. Esperas longas para entrega
Tempo médio: 18-36 meses entre pedido e entrega.
Problema: Agência planeja substituir frota, mas ônibus velhos quebram antes de novos chegarem.
4. Infraestrutura de carregamento/abastecimento
Elétricos: Precisam de carregadores de alta potência (150-350 kW) Hidrogênio: Precisam de estações de abastecimento (raras, caras)
Custo: Infraestrutura pode custar tanto quanto os ônibus.
Exemplo:
- Ônibus elétrico: $750.000
- Carregador + instalação elétrica: $500.000
5. Rede elétrica
Problema: Carregar 50-100 ônibus simultaneamente exige capacidade enorme da rede.
Solução: Atualização de subestações, linhas dedicadas, armazenamento em baterias (battery storage).
Custo: Milhões de dólares por garagem.
Vantagens dos ônibus elétricos
1. Zero emissões locais
Diesel: Emite NOx, material particulado, CO2 Elétrico: Zero emissão no escape
Benefício: Qualidade do ar em centros urbanos.
2. Menor custo operacional
Diesel: $0,50-0,70 por milha (combustível + manutenção) Elétrico: $0,20-0,30 por milha
Economia: 40-50% ao longo de 12 anos de vida útil.
3. Menos ruído
Diesel: 80-85 dB Elétrico: 60-65 dB
Benefício: Menos poluição sonora em bairros.
4. Manutenção simplificada
Diesel: Troca de óleo, filtros, correias, embreagem Elétrico: Praticamente só pneus e freios
Resultado: Menos tempo fora de operação.
Brasil: onde estamos?
Números nacionais
Total de ônibus elétricos no Brasil (2025): ~3.000 (estimativa)
Comparação: EUA têm 8.116 (país 1,5x maior em população).
Penetração: Brasil está atrás em eletrificação de transporte público.
Cidades líderes
São Paulo:
- Corredor ABD (Santo Amaro-Bandeirantes-Domingos de Moraes): 266 ônibus elétricos BYD
- Meta: 2.600 até 2026
Rio de Janeiro:
- BRT TransOlímpica com ônibus elétricos
- Expansão gradual
Curitiba:
- Testes em linhas específicas
Brasília:
- Licitação para frotas elétricas
Desafios brasileiros
1. Custo Alto
Ônibus elétrico no Brasil: R$ 2-2,5 milhões Ônibus diesel: R$ 800 mil – 1 milhão
Diferença: 2-3x mais caro
Barreira: Prefeituras/operadoras não têm capital.
2. Falta de Financiamento Público
EUA têm Infrastructure Act com bilhões de dólares.
Brasil tem:
- Programas pontuais (PAC, Pró-Transporte)
- Sem escala comparável
3. Infraestrutura de Carregamento
Garagens antigas não suportam carga elétrica necessária.
Atualização: R$ 5-10 milhões por garagem.
4. Rede Elétrica Limitada
Algumas cidades têm rede sobrecarregada.
Adicionar centenas de ônibus elétricos exige investimento em distribuição.
5. Dependência Tecnológica
Baterias, motores, controladores: Importados (China, Europa, EUA)
Custo: Dólar alto encarece manutenção.
O que o Brasil pode aprender dos EUA
1. Financiamento federal estruturado
EUA destinaram bilhões via Infrastructure Act.
Brasil poderia criar Fundo Nacional de Eletrificação de Transporte com:
- R$ 5 bilhões/ano
- Grants para municípios comprarem ônibus elétricos
- Subsídio de 50-70% do custo
2. Programas de vouchers estaduais
Califórnia: Vouchers de até $400.000 por ônibus elétrico.
São Paulo, Rio, MG poderiam criar programas similares.
3. Infraestrutura antes dos ônibus
Erro comum: comprar ônibus antes de ter infraestrutura.
Sequência correta:
- Atualizar rede elétrica
- Instalar carregadores
- Treinar equipes
- Depois comprar ônibus
4. Consórcios de compra
Indiana, Wisconsin (estados menores) conseguiram escala juntando pedidos.
Brasil: Consórcio de 10-20 municípios pode negociar melhor preço.
5. Metas claras
Projeção EUA: 15.600 até 2030.
Brasil poderia: 10.000 até 2030 (escala semelhante ajustada por PIB).
Meta clara atrai investimento privado.
Ameaça da reversão federal (EUA)
Permitir “baixas emissões” ao invés de “zero”
Híbridos são melhor que diesel puro, mas:
- Ainda emitem CO2
- Ainda precisam de manutenção de motor combustão
- Não são o futuro
Risco: Dinheiro federal vai para solução intermediária, atrasando transição completa.
Incerteza = paralisia
Fabricantes, agências de trânsito precisam de previsibilidade.
Mudanças de política a cada 2-4 anos (ciclos eleitorais) travam investimento.
Calstart alerta: “Estados com incentivos previsíveis continuarão crescendo. Outros podem estagnar”.
Crescimento real, futuro incerto
Fatos:
- 8.116 ônibus zero-emissão nos EUA (crescimento 16%)
- Califórnia lidera com 2.623
- Projeção: 15.600 até 2030
Incertezas:
- Mudança federal permite híbridos ao invés de 100% elétricos
- Capacidade de manufatura limitada
- Infraestrutura de carregamento cara
- Rede elétrica precisa atualização massiva
Brasil:
- ~3.000 ônibus elétricos (atrás dos EUA proporcionalmente)
- Barreiras: custo, financiamento, infraestrutura
- Oportunidade: aprender com EUA, criar programas estruturados
Lição central: Eletrificação de transporte público funciona, mas exige:
- Financiamento estável
- Incentivos previsíveis
- Infraestrutura antes dos veículos
- Metas claras de longo prazo
Como disse Mike Hynes: “Questões-chave moldando 2026 incluirão capacidade de produção de veículos, prontidão de infraestrutura de carregamento/abastecimento e como estados respondem se financiamento federal se tornar menos previsível“.
Brasil enfrenta mesmas questões. Com agravante: começamos anos atrás.
Hora de acelerar. Literalmente.

