Dias 10, 20 e 30 de cada mês, prefeitos de 5.570 municípios brasileiros acordam esperando a mesma coisa: o FPM cair na conta.
Fundo de Participação dos Municípios é transferência constitucional obrigatória da União para municípios e Distrito Federal.
Corresponde a 22,5% da arrecadação de:
- Imposto de Renda (IR)
- Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI)
(Excluídos incentivos fiscais)
Em 2022, municípios receberam R$ 153,5 bilhões via FPM.
Para ter dimensão: é mais que orçamento federal de:
- Educação: R$ 123 bilhões
- Defesa: R$ 126 bilhões
- Ciência e Tecnologia: R$ 9 bilhões
Como funciona na prática
Cronograma de repasses
Dia 10: Repasse baseado na arrecadação de IR/IPI dos 10 dias anteriores Dia 20: Idem Dia 30: Idem
Total: Três repasses mensais
Importante: Valor não é fixo. Depende de arrecadação federal.
Se economia vai bem → IR/IPI sobem → FPM sobe Se economia vai mal → IR/IPI caem → FPM cai
Como saber quanto vai cair?
Município consulta Portal da Transparência ou site do Tesouro Nacional.
Estimativa é publicada dias antes do repasse.
Prefeito sabe (aproximadamente) quanto receberá para pagar:
- Folha de pagamento
- Fornecedores
- Contas de luz, água
- Combustível
Matemática da distribuição
Divisão fundamental: 10% vs 90%
Capitais: 10% do total do FPM Interior: 90% do total do FPM
Lógica: Interior tem muito mais municípios (5.543 vs 27 capitais), mas capitais têm muito mais população.
FPM das Capitais (10%)
Distribuído por população.
Coeficiente calculado: (População da capital / População de todas as capitais) × 10%
Exemplo simplificado:
- São Paulo (capital): ~12 milhões hab
- Total capitais: ~50 milhões hab
- Participação: 24%
- Parcela do FPM-Capitais: 24% de 10% = 2,4% do FPM total
FPM do Interior (90%)
Distribuído por faixas populacionais.
TCU define 16 faixas (até 156.216 habitantes).
Cada faixa tem coeficiente.
Exemplos de coeficientes (simplificados):
- Até 10.188 hab: coeficiente 0,6
- 10.189 a 13.584 hab: coeficiente 0,8
- 13.585 a 16.980 hab: coeficiente 1,0
- …
- 142.634 a 156.216 hab: coeficiente 4,0
Municípios acima de 156.216 habitantes: Entram em reserva especial, com cálculo próprio.
Atualização anual
TCU atualiza coeficientes todo ano baseado em:
- Estimativas populacionais do IBGE
- Mudanças de faixa populacional
Consequência: Município que cresce pode pular de faixa e receber mais.
Município que cresce menos que média pode receber proporcionalmente menos.
Dependência crítica
Municípios pequenos: até 57% da receita
Municípios com até 5 mil habitantes dependem do FPM para até 57% de suas receitas.
Exemplo prático:
Município de 3 mil habitantes:
- Receita total anual: R$ 15 milhões
- FPM: R$ 8,5 milhões (57%)
- ICMS: R$ 3 milhões (20%)
- ISS: R$ 500 mil (3%)
- IPTU: R$ 300 mil (2%)
- Outras transferências: R$ 2,7 milhões (18%)
Problema: Se FPM cai 10%, receita total cai 5,7%.
Com folha de pagamento comprometendo 50-60% do orçamento, não há margem.
Municípios médios: 30-40%
Municípios de 50-100 mil habitantes dependem de 30-40% do FPM.
Ainda alta dependência, mas têm mais arrecadação própria (ISS, IPTU, taxas).
Capitais: 10-20%
São Paulo, Rio, Belo Horizonte dependem menos do FPM (10-20% da receita).
Maior parte vem de:
- ICMS (estadual, repassado)
- ISS (próprio)
- IPTU (próprio)
- Outras transferências
História do FPM
1965: criação
Regime militar criou FPM para compensar centralização tributária.
A União concentrou arrecadação e os municípios perderam autonomia fiscal.
FPM foi contrapartida: União arrecada, mas repassa parte.
1967: Primeiro repasse
Começou com 10% de IR e IPI.
1988: Constituição cidadã aumenta para 22,5%
Redemocratização ampliou participação municipal.
Art. 159, I, b: FPM = 22,5% de IR + IPI
2007-2021: Temporariamente 25,5%
Emendas constitucionais elevaram para 25,5%.
Medida expirou em 2021. Voltou para 22,5%.
Para que serve o FPM?
Financiamento de serviços essenciais
Saúde:
- UBS (Unidades Básicas de Saúde)
- Hospitais municipais
- Agentes comunitários
- Vacinas, medicamentos
Educação:
- Escolas municipais (creches, pré-escola, fundamental)
- Salários de professores
- Merenda escolar
- Transporte escolar
Infraestrutura:
- Manutenção de ruas
- Iluminação pública
- Limpeza urbana
- Obras públicas
Administração:
- Folha de pagamento de servidores
- Contas de luz, água, telefone
- Combustível de veículos
- Material de escritório
Vinculações constitucionais
Saúde: Mínimo 15% das receitas (incluindo FPM) Educação: Mínimo 25% das receitas
Prática: O FPM já chega com parte “carimbada”.
Problemas do sistema
1. Não corrige desigualdades regionais profundas
Nordeste:
- Municípios pequenos, pobres, dependentes
- Recebem FPM, mas não suficiente para desenvolvimento
Sul/Sudeste:
- Municípios maiores, mais ricos, mais arrecadação própria
- Recebem FPM menor proporcionalmente, mas têm outras fontes
Resultado: FPM alivia, mas não resolve desigualdade.
2. Desincentiva arrecadação própria
Município que depende 57% do FPM tem pouco incentivo para:
- Cobrar IPTU eficientemente
- Fiscalizar ISS
- Atualizar planta de valores
- Combater sonegação
Por quê? Esforço fiscal alto, resultado baixo comparado ao FPM.
Efeito perverso: Dependência perpetua ineficiência.
3. Volatilidade
FPM depende de IR e IPI.
Crise econômica → Queda de arrecadação → Queda de FPM
Município não controla variável principal de sua receita.
2020 (pandemia):
- Economia parou
- IR/IPI caíram
- FPM caiu
- Municípios não puderam cortar despesas (saúde, educação vinculadas)
Resultado: Endividamento forçado.
4. Critério populacional simplista
Município com 10 mil habitantes pode ter:
- Caso A: População jovem, econômica ativa, renda média alta
- Caso B: População envelhecida, inativa, renda baixa
Ambos recebem mesmo coeficiente de FPM.
Caso B precisa mais (saúde de idosos custa mais), mas recebe igual.
5. Atualização anual gera instabilidade
Município planejou orçamento com base em coeficiente X.
TCU atualiza população → Município pula de faixa ou cai de faixa.
Receita muda 5-10% de um ano para outro.
Problema: Contratos plurianuais, folha de pagamento não podem ser cortados facilmente.
Alternativas e propostas de reforma
1. Incluir critérios além de população
Proposta: Considerar:
- IDH municipal
- Renda per capita
- Taxa de pobreza
- Área territorial
- Densidade populacional
Objetivo: Municípios mais pobres receberiam mais que municípios ricos de mesmo tamanho.
Resistência: Municípios que perderiam se opõem.
2. Criar fundo de desenvolvimento regional
Proposta: Parte do FPM seria reservada para projetos de desenvolvimento em regiões mais pobres.
Não seria repasse automático, mas concorrido por projetos.
Vantagem: Incentiva planejamento, não apenas consumo corrente.
Desvantagem: Complica distribuição, exige capacidade técnica municipal.
3. Vincular a indicadores de gestão
Proposta: Municípios com melhor gestão fiscal receberiam bônus no FPM.
Indicadores:
- Arrecadação própria / PIB municipal
- Transparência (nota no ITGP-M)
- Regularidade de contas (TCE)
Vantagem: Incentiva eficiência.
Desvantagem: Pode punir municípios já vulneráveis.
4. Estabilização com fundo de equalização
Proposta: Criar fundo que guarda excedente em anos bons e complementa em anos ruins.
Objetivo: Reduzir volatilidade.
Exemplo: Noruega faz isso com petróleo.
Desafio: União precisa poupar em tempos de vacas gordas (improvável).
O que municípios podem fazer
1. Diversificar receitas
Não depender 57% do FPM. Melhorar arrecadação de:
- IPTU: Atualizar planta de valores, cadastrar imóveis irregulares
- ISS: Fiscalizar empresas de serviços
- Taxas: Cobrar corretamente por serviços (lixo, iluminação)
2. Criar reserva de contingência
Guardar 5-10% do FPM em fundo de emergência.
Quando FPM cair, fundo complementa.
Problema: LRF dificulta poupança municipal.
3. Planejar cenários
Otimista: FPM cresce 5% Realista: FPM mantém Pessimista: FPM cai 10%
Orçamento deve funcionar no cenário pessimista.
4. Monitorar arrecadação federal
Acompanhar mensalmente IR e IPI no Portal da Transparência.
Antecipar quedas e ajustar despesas antes da crise.
5. Capacitar equipe fiscal
Investir em treinamento de:
- Secretaria de Fazenda
- Fiscais tributários
- Contadores
Arrecadação própria eficiente reduz dependência do FPM.

