Imagine uma empresária, dona de uma cafeteria e sorveteria no coração de Maricá (RJ). Em sua loja, moradores compram café e sorvete usando uma moeda que não existe no bolso: a Mumbuca.
Ela não está sozinha. 12 mil estabelecimentos em Maricá aceitam a moeda social digital. Além disso, em Rolante (RS), 40% dos estabelecimentos aceitam Bitcoin. Santo Antônio da Alegria (SP) lançou a primeira criptomoeda municipal oficial. No bairro paulistano das Beijas, coletivo criou moeda própria para rifas e doações.
O movimento de moedas digitais municipais não é apenas experimento tecnológico — é estratégia econômica que mantém recursos circulando localmente, fortalece pequenos comércios e inclui financeiramente milhares de pessoas.
Mumbuca: caso que virou referência mundial
R$ 8,4 milhões mensais circulando localmente
Criado em 2013, o programa Renda Básica da Cidadania de Maricá repassa mensalmente 8,4 milhões de mumbucas (equivalente a R$ 8,4 milhões) a 42,5 mil moradores com renda familiar de até três salários mínimos.
Requisitos:
- Inscrição no CadÚnico
- Residência no município há pelo menos três anos
- Cada mumbuca = R$ 1,00
Em 2025, o benefício é de R$ 230 por pessoa. Durante a pandemia, chegou a R$ 300, demonstrando flexibilidade do sistema.
12 mil estabelecimentos credenciados
A rede aceita desde o “vendedor de picolé” até grandes redes nacionais como Renner, Casa e Vídeo, Droga Raia. “Hoje o dinheiro que circula em Maricá é a mumbuca”, afirma Natália Sciammarella, presidente do Banco Mumbuca.
83% dos estabelecimentos credenciados são pequenos comércios locais — exatamente o público-alvo da moeda social.
Crescimento de emprego formal durante pandemia
Entre 2020 e 2021, enquanto o Brasil enfrentava crise, Maricá registrou crescimento de 8,5% no emprego formal. Na comparação seguinte, o índice saltou para 11,5%.
A moeda Mumbuca, aliada ao Programa de Amparo ao Trabalhador (PAT), mostrou sua potência exatamente quando a economia mais precisava.
Reconhecimento internacional
Equipes de Londrina, Linhares, Teófilo Otoni, Recife e até da Generalitat da Catalunha (Espanha) visitaram Maricá para conhecer o modelo. “A demanda é constante e abrange todo o espectro político, da esquerda à direita”, diz Adalton Mendonça, secretário municipal de economia solidária.
Como funciona na prática
Plataforma E-Dinheiro
A Mumbuca opera através da plataforma E-Dinheiro, desenvolvida pelo Instituto E-Dinheiro Brasil. Não é criptomoeda, são moedas eletrônicas como arranjo de pagamento de uso restrito, conforme Lei 12.865/2013 e Resolução 4.282 do Banco Central.
Tecnologia disponível em:
- Aplicativo para smartphone
- Cartão de débito com chip NFC (pagamento por aproximação)
Para beneficiários
Impossível trocar mumbucas por reais. O objetivo é manter dinheiro circulando localmente. Beneficiários usam para compras em estabelecimentos credenciados e pagamento de contas de serviços públicos.
Para comerciantes
Podem sacar mumbucas após 48 horas, com taxa de 2% sobre o valor. Essa taxa financia programas de crédito produtivo e reformas residenciais sem juros.
Vantagens:
- Sem necessidade de maquininha
- Taxa menor que operadoras tradicionais (2% vs 3-5%)
- Acesso a público com poder de compra garantido
- Aplicativo integrado com emissão de notas fiscais
Cartão de crédito Mumbuca
Lançado para promover inclusão financeira de cidadãos cuja experiência com crédito se resumia a carnês do comércio. Sem juros e sem consignação, direcionado para transações em varejo local de menor porte.
Cashback diferenciado: Compras em comércios de moradores têm retornos maiores que em grandes redes “forasteiras”.
Rolante (RS): Bitcoin como moeda local
40% dos estabelecimentos aceitam
Rolante adotou estratégia diferente: usar Bitcoin como moeda complementar. Desde 2024, cerca de 40% dos estabelecimentos aceitam pagamentos em BTC, fomentando turismo e comércio local.
A cidade se tornou destino de “turismo cripto”, atraindo entusiastas de criptomoedas interessados em usar Bitcoin no dia a dia.
Vantagens e desafios
Vantagens:
- Atração de público específico (entusiastas cripto)
- Marketing natural como “cidade Bitcoin”
- Valorização potencial da reserva
Desafios:
- Volatilidade do Bitcoin
- Necessidade de educação financeira sobre criptoativos
- Complexidade tributária
Santo Antônio da Alegria (SP): primeira criptomoeda municipal oficial
Lançada em 2024, a moeda “Alegria” é a primeira criptomoeda municipal oficial do Brasil. Baseada em blockchain Polkadot, é usada para vale-refeição e benefícios sociais.
Diferença crucial para Mumbuca: opera em blockchain pública, oferecendo transparência descentralizada e possibilidade de auditoria por qualquer cidadão.
Beijas (SP): moeda comunitária de bairro
Criada por coletivo nos bairros Beatriz, Ida e Jataí (zona oeste de SP), a moeda Beijas fortalece comércio local através de rifas e doações em 2024-2025.
Modelo baseado em confiança comunitária e economia solidária, sem necessidade de tecnologia complexa.
Exemplos internacionais
Miami (EUA): MiamiCoin
Arrecadou milhões de dólares para prefeitura. Aceita em serviços públicos, a MiamiCoin usa modelo de “citycoins” — criptomoedas mineradas cujo valor beneficia a cidade.
Lugano (Suíça): Bitcoin para Impostos
Lugano aceita Bitcoin e Tether para pagamento de impostos municipais, promovendo uso urbano de blockchain e posicionando-se como “capital cripto” europeia.

