Drenagem urbana: Brasil investe R$ 11,7 Bi contra enchentes, mas déficit persiste

por Grupo Editores Blog.

Entre 1991 e 2023, o Brasil registrou quase 26 mil eventos hidrológicos, resultando em 3.464 mortes e prejuízos superiores a R$ 151 bilhões. O governo federal anunciou recentemente investimentos de R$ 11,7 bilhões para obras de drenagem e contenção de encostas em 235 municípios de 26 estados.

Parece muito? Não é. As perdas anuais com enchentes chegam a R$ 80 bilhões. Os investimentos médios entre 2017-2023 foram de R$ 10 bilhões por ano, mas para universalizar a drenagem até 2033, seria necessário mais que dobrar para R$ 22,3 bilhões anuais.

Enchentes: retrato da deficiência

Apenas 40,44% dos municípios brasileiros possuem sistemas exclusivos de drenagem pluvial. Pior: 32,49% não têm qualquer estrutura, deixando populações vulneráveis a enchentes e deslizamentos.

No Sul do país, região devastada pelas enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul, 96,6% das cidades carecem de planos de drenagem. Nacionalmente, 94,7% dos municípios não possuem Plano Diretor de Drenagem e Manejo de Águas Pluviais.

Entre 2017 e 2022, mesmo com investimentos de R$ 9,3 bilhões, o número de residências vulneráveis a enchentes aumentou de 633 mil para 781 mil — evidência de que soluções improvisadas não funcionam.

Novo PAC: prioridade para áreas críticas

O Novo PAC aloca R$ 4,8 bilhões na primeira etapa para 961 municípios críticos, priorizando obras contra alagamentos. Esses aportes podem induzir R$ 20 bilhões em PIB e evitar custos sociais de até R$ 3 milhões por vida perdida, segundo estudos econômicos.

A segunda etapa disponibiliza R$ 5,5 bilhões em financiamento via FGTS. Diferente da primeira etapa, não são recursos a fundo perdido — municípios precisam contrair empréstimos com encargos financeiros.

Casos brasileiros que funcionam

São Paulo

São Paulo bateu recorde. Desde 2021, a prefeitura destinou R$ 5,2 bilhões para ações contra alagamentos. O orçamento de 2024 foi de R$ 1,8 bilhão — o maior da história da cidade.

Principais projetos:

  • Reservatório Antonic: R$ 273,8 milhões
  • Reservatório Morro do S: R$ 179,3 milhões
  • 4 reservatórios em Perus: R$ 130,3 milhões
  • Córrego Jardim São Luiz: R$ 78,1 milhões

A cidade combina piscinões tradicionais com jardins de chuva conforme manual de obras viárias, melhorando drenagem urbana de forma integrada.

Curitiba

Curitiba incorporou jardins de chuva e valas de infiltração no plano diretor, reduzindo sobrecarga em galerias. A abordagem combina macrodrenagem (canais e reservatórios) com microdrenagem verde (soluções baseadas na natureza).

Porto Alegre

 A capital gaúcha aposta em pavimentos permeáveis e sistemas de retenção privada, aumentando resiliência em chuvas intensas. A estratégia distribui responsabilidade entre poder público e proprietários.

Rio de Janeiro: Realengo Ganha Megareservatório

O Rio investe R$ 3,3 bilhões desde 2021 em 488 iniciativas contra enchentes. Realengo receberá reservatório de 18 milhões de litros — capacidade semelhante ao da Praça da Bandeira. A obra inclui canalização do Rio Catarino e melhorias na rede de drenagem.

Cidades-esponja e adaptação climática

China

A China lidera com 30 cidades-piloto de “cidades-esponja” desde 2015. Wuhan e Pequim absorvem 70-90% da chuva anual via jardins de chuva e pavimentos permeáveis, reduzindo inundações em até 57% nas áreas implementadas.

Em Kunming, o modelo “Uma Cidade, Um Executor” cortou duração de enchentes de 72 horas para 14 horas.

Europa

Copenhague (Dinamarca) investe no “Cloudburst Master Plan”, transformando parques em reservatórios e ruas em áreas permeáveis, evitando bilhões em danos futuros.

Rotterdam (Holanda) usa praças alagáveis e biovaletas, integrando lazer e drenagem. A cidade convive com água ao invés de lutar contra ela.

Estratégias que funcionam

Macrodrenagem Canais, reservatórios e parques lineares para volumes grandes (chuvas de retorno de 100 anos). Essencial para áreas urbanas consolidadas.

Microdrenagem Verde Jardins de chuva, pavimentos permeáveis, valas de infiltração e telhados verdes. Retêm água na origem, reduzindo escoamento superficial.

Infraestrutura Azul Combinação de “infraestrutura cinza” (concreto) com “infraestrutura verde” (soluções baseadas na natureza). Melhor custo-benefício e co-benefícios ambientais.

Renaturalização de Rios Recuperar rios canalizados, devolvendo-lhes função natural de retenção. Cria áreas verdes e melhora qualidade de vida urbana.

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