Texto adaptado da Gazeta do Povo
Monte do Carmo, município tocantinense de cerca de 7 mil habitantes, está prestes a passar por transformação que poucos lugares no Brasil experimentam: investimento de US$ 250 milhões (aproximadamente R$ 1,3 bilhão) em extração de ouro por mineradora peruana Hochschild Mining.
“O início das atividades será a redenção de Monte do Carmo”, afirma Rubens da Paixão Pereira Amaral (PDT), prefeito do município.
Números justificam o otimismo:
- 2 mil empregos diretos e indiretos (município tem menos de mil trabalhadores com carteira assinada)
- Faturamento projetado: US$ 250 milhões/ano
- Município receberá 65% da Cfem (Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais)
- Capacidade de extração: 6 mil toneladas de minério/dia
- Vida útil da jazida: 12 anos
Mas transformações dessa magnitude trazem tanto promessas quanto riscos. A história da mineração no Brasil está repleta de ambos.
Tocantins e o boom do ouro
Janeiro 2026: recorde histórico
Tocantins exportou 222 quilos de ouro em janeiro de 2026, gerando US$ 29,6 milhões (R$ 152,7 milhões). Valor supera em 60% o registrado no mesmo período de 2025.
Paradoxo: estado exportou 10 quilos a menos que ano anterior, mas arrecadou US$ 11,2 milhões a mais.
Razão: valorização do ouro no mercado internacional.
Fevereiro 2025: US$ 92 mil por quilo Fevereiro 2026: US$ 166 mil por quilo
Aumento de 80% em um ano.
Principais destinos
- Canadá: 126 kg (57%)
- Suíça: 92 kg (41%)
- Emirados Árabes Unidos: 4 kg (2%)
Monte do Carmo
Indicadores sociais
IDH (2010): 0,608 Média nacional (2019): 0,765
Município está abaixo da média em desenvolvimento humano.
PIB: R$ 398 milhões Renda média formal: R$ 2,4 mil Trabalhadores com carteira assinada: Menos de 1 mil
Infraestrutura atual
Saúde:
- 1 hospital de pequeno porte
- 1 Unidade Básica de Saúde (UBS)
- Casos complexos são enviados para Porto Nacional ou Palmas (95 km)
Educação: Não detalhada no artigo, mas típica de municípios pequenos brasileiros.
Segurança: Policiamento municipal limitado.
Transporte: Rodovias que não suportam tráfego pesado de mineração.
Patrimônio histórico
Monte do Carmo preserva patrimônio que remonta ao século XVIII. Cidade nasceu como arraial de Nossa Senhora do Carmo em 1741, após descoberta de jazidas de ouro na região.
Tradição mineradora tem quase 300 anos.
A Hochschild Mining
Perfil da empresa
- Origem: Peru
- Tempo de mercado: Mais de 110 anos
- Foco: Metais preciosos (ouro e prata)
- Operações: Peru, Argentina (San José), Brasil
Investimentos no Brasil
2024: R$ 1 bilhão em Mara Rosa (GO) 2026: R$ 1,3 bilhão em Monte do Carmo (TO)
Total: R$ 2,3 bilhões em operações brasileiras.
Estágio do projeto em Monte do Carmo
Fase atual: Revisão de engenharia (define parâmetros técnicos e operacionais antes das obras)
Licenças obtidas:
- Licença de Instalação (Instituto Natureza do Tocantins)
- Outorga de Direito de Uso de Recursos Hídricos
- Autorização de Exploração Florestal
Início previsto: 2026
Promessas da mineração
1. Empregos
2 mil postos diretos e indiretos em município com menos de mil trabalhadores formais.
Impacto: Praticamente triplicar empregos formais.
Tipos de trabalho:
- Operadores de máquinas
- Técnicos em mineração
- Engenheiros
- Logística
- Segurança
- Serviços de apoio (alimentação, limpeza, manutenção)
2. Arrecadação municipal
Município recebe 65% da Cfem.
Com faturamento projetado de US$ 250 milhões/ano, alíquota de Cfem para ouro varia de 1% a 1,5% sobre receita bruta.
Cálculo conservador:
- Receita bruta: US$ 250 milhões
- Cfem (1%): US$ 2,5 milhões
- Parcela do município (65%): US$ 1,625 milhão/ano ≈ R$ 8,4 milhões/ano
Para município com PIB de R$ 398 milhões, isso representa aumento de 2,1% na economia local anualmente.
3. Investimentos em infraestrutura
Prometidos pela mineradora:
- Anel viário contornando município (maquinário pesado não passará no centro)
Necessários pelo município:
- Ampliação de serviços de saúde
- Reforço de policiamento (governo estadual sinalizou apoio)
- Melhoria de abastecimento de água
4. Desenvolvimento regional
Comércio, hotelaria, restaurantes, serviços diversos tendem a crescer com chegada de trabalhadores.
Riscos da mineração
1. Garimpo ilegal
Em 26 de fevereiro de 2026, Agência Nacional de Mineração (ANM) e Polícia Federal desarticularam garimpo clandestino em Monte do Carmo.
Encontrado no local:
- Galerias ativas e abandonadas (uma com 45 metros de profundidade)
- Máquinas e equipamentos de extração
- Mercúrio (substância tóxica de alto potencial poluidor)
Problema: Mineração legal coexiste com ilegal. Fiscalização precisa ser constante.
2. Impacto ambiental
Extração de 6 mil toneladas de minério/dia gera:
- Rejeitos minerais
- Contaminação de solo e água (se mal gerenciado)
- Desmatamento
- Poluição sonora e do ar
Licenças ambientais foram obtidas, mas execução precisa ser fiscalizada.
3. Dependência econômica
12 anos de vida útil da jazida.
O que acontece depois?
Se município não diversificar economia durante esse período, enfrentará colapso quando mina fechar.
Exemplos históricos: cidades mineradoras brasileiras que viraram cidades-fantasma após esgotamento de jazidas.
4. Inflação local
Chegada de 2 mil trabalhadores (muitos de fora) pressiona:
- Preços de aluguéis (especulação imobiliária)
- Custo de vida (alimentos, serviços)
- Infraestrutura (escolas, hospitais, saneamento)
População original pode ser expulsa economicamente da própria cidade.
5. Problemas sociais
Boom populacional em cidade pequena traz:
- Aumento de criminalidade
- Prostituição
- Alcoolismo e uso de drogas
- Conflitos entre moradores antigos e novos
Prefeito sinalizou reforço policial, mas preparo social é mais complexo.
6. Ausência de planejamento urbano
Município precisa atualizar:
- Plano Diretor
- Código de Obras
- Zoneamento
- Plano de Mobilidade
Sem isso, crescimento será caótico.

