Inteligência artificial no setor público: expectativa cresce mais rápido do que a tecnologia

por Grupo Editores Blog.

Quase 80% dos líderes de TI do setor público americano afirmam que a adoção de inteligência artificial em suas organizações está alinhada com o planejamento de supervisão da tecnologia. O problema é que apenas 37% têm um framework formal de governança de IA em vigor, e somente 19% dos profissionais de TI de governos estaduais e locais dizem ter um mecanismo de supervisão ativo. Os números, de uma pesquisa da UserEvidence com mais de 800 profissionais do setor público nos EUA e no Reino Unido, revelam um gap que especialistas chamam de “onde o risco se acumula silenciosamente”.

Lacuna entre percepção e realidade

Travis Galloway, assessor sênior de assuntos governamentais da SolarWinds, empresa que encomendou o relatório, foi direto ao nomear o problema: “A confiança na governança de IA está bem à frente dos controles reais que as agências têm em vigor, e essa lacuna é onde o risco se acumula silenciosamente.”

O dado mais revelador talvez seja esse: apenas 20% dos entrevistados afirmam que sequer existe um framework de governança de IA em suas organizações. Mas quatro a cada cinco líderes acreditam que a adoção está alinhada com o planejamento de supervisão. A desconexão entre a percepção subjetiva dos gestores e a realidade objetiva dos controles em vigor é, ela mesma, um sinal de risco.

Adoção acelerada da inteligência artificial no setor público

Apenas 5% dos entrevistados dizem que nenhuma ferramenta de IA está em uso ou em planejamento em suas organizações. O interesse e a exploração são altos. Mas menos de 40% relatam uso disseminado de IA dentro de suas organizações, e menos de 40% dizem que as ferramentas de IA estão totalmente integradas às operações de monitoramento padrão.

O relatório identifica a pressão de adoção como um fator de risco em si: “A urgência em torno da adoção de IA está empurrando as equipes de TI do setor público muito para fora de sua zona de conforto, antes que as bases certas estejam em vigor.”

Entre os tipos de IA mais utilizados, ferramentas de IA generativa dominam: 77% dos entrevistados relatam que seu empregador está usando ou testando ferramentas como Microsoft Copilot, ChatGPT e Google Gemini. Mais de 50% usam ferramentas de cibersegurança assistidas por IA, 49% empregam monitoramento de TI com IA e 46% usam IA em help desk ou gestão de serviços de TI. Trinta e cinco por cento relatam uso ou piloto de ferramentas de IA agêntica, capazes de tomar ações sem intervenção humana.

Segurança sendo sacrificada para viabilizar a adoção

Um dos dados mais preocupantes da pesquisa é que 35% dos entrevistados disseram que suas organizações estão afrouxando restrições de segurança ou conformidade para viabilizar o acesso às ferramentas de IA. No mesmo período, quase 45% reportaram um aumento nos incidentes de segurança relacionados à IA no último ano.

A combinação é problemática: menos controles, mais incidentes. Em um setor onde ataques cibernéticos estão em alta, especialmente contra governos locais que concentram grandes volumes de dados sensíveis de cidadãos, essa troca é difícil de justificar.

Na área de arquitetura de segurança, 24% dos entrevistados americanos implementaram completamente a arquitetura zero trust, e outros 36% dizem que o framework está “majoritariamente” implementado. São números que apontam progresso, mas também mostram que metade das organizações ainda está no caminho.

Governos locais e federais em ritmos diferentes

A adoção de IA varia significativamente entre segmentos do setor público. Trinta e dois por cento dos líderes de TI do governo federal relataram estar “perseguindo agressivamente” a adoção de IA, enquanto apenas 12% dos profissionais de governos estaduais e locais disseram o mesmo. A maioria dos entrevistados locais, 68%, descreveu sua abordagem como “metódica”, enquanto 17% a classificaram como “hesitante” e 4% como “céticos”.

Essa diferença de ritmo faz sentido dado o contraste de recursos, mas também significa que os governos que mais diretamente prestam serviços aos cidadãos, com menos capacidade técnica e orçamentária, são os que estão mais expostos ao risco de adotar IA sem as salvaguardas necessárias.

O que isso significa para a gestão pública

O retrato que a pesquisa oferece é de um setor no meio de uma transição acelerada que ainda não foi acompanhada pela construção das estruturas que a tornam segura. Frameworks de governança, políticas de uso, treinamento de servidores, controles de segurança e mecanismos de supervisão humana são os elementos que transformam a adoção de IA de aposta em estratégia. Sem eles, o entusiasmo dos gestores não é o mesmo que competência institucional para lidar com o que vem junto da tecnologia.

Para governos brasileiros que estão no início da jornada de adoção de IA, o aviso implícito nos dados americanos é valioso: a confiança na própria competência de supervisão pode ser um dos primeiros sinais de que a governança ainda não está onde deveria estar.

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