Quem chega a Santa Rita do Sapucaí, no sul de Minas Gerais, pode facilmente associar a cidade de cerca de 40 mil habitantes ao ritmo tranquilo típico do interior. Há casas de muro baixo, comércio local, produtores rurais e moradores conversando pelas ruas. Mas basta observar um pouco mais para perceber que a vocação econômica do município está também em outro lugar: na tecnologia.
Conhecida oficialmente como Vale da Eletrônica e frequentemente chamada de “Vale do Silício brasileiro”, Santa Rita do Sapucaí reúne mais de 160 empresas de tecnologia e dezenas de startups. O ecossistema se desenvolveu a ponto de transformar o município em uma referência nacional em inovação, uma verdadeira cidade das startups, onde educação, empreendedorismo e indústria tecnológica se encontram.
Uma vez por ano, essa estrutura ganha uma dimensão ainda maior com o Hacktown. Em sua décima edição, realizada entre 3 e 7 de setembro, o festival reúne cerca de 15 mil pessoas, quase um terço da população local. Palestras, debates, apresentações musicais e atividades de artes visuais ocupam escolas, restaurantes, padarias, lojas e outros espaços da cidade.
A proposta é justamente tirar a inovação dos ambientes tradicionais. Durante os cinco dias do evento, não é incomum caminhar pelo centro e encontrar uma discussão sobre negócios, inteligência artificial, carreira ou comportamento acontecendo a poucos metros de uma praça ou de um estabelecimento comercial.
A movimentação também se traduz em dinheiro para a economia local. Segundo Marcos David, cofundador do Hacktown, em entrevista concedida ao site Seu Dinheiro, a edição anterior movimentou aproximadamente R$ 35 milhões em Santa Rita do Sapucaí. Para 2026, a expectativa é alcançar R$ 40 milhões.
Mas a relação da cidade com a tecnologia começou muito antes do festival.
Uma história construída pela educação
Um dos principais capítulos dessa trajetória foi escrito por Luzia Rennó Moreira, conhecida como Sinhá Moreira. Depois de conhecer novas tecnologias durante viagens pela Europa, ela decidiu levar esse conhecimento para sua cidade.
Em 1959, utilizou recursos da família para fundar a Escola Técnica de Eletrônica Francisco Moreira da Costa. A instituição atraiu jovens interessados em uma área ainda pouco explorada no Brasil e ajudou a criar uma mão de obra especializada em Santa Rita.
Poucos anos depois, em 1965, surgiu o Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel), com formação voltada à Engenharia de Telecomunicações. A combinação entre ensino técnico, engenharia e empreendedorismo criou as bases para o desenvolvimento do setor tecnológico local.
Na década de 1980, entretanto, algumas empresas importantes deixaram a região. Para tentar recuperar a economia e reposicionar o município, o então prefeito Paulinho Dentista passou a divulgar Santa Rita como o “Vale da Eletrônica”.
A estratégia funcionou. Empresas começaram novamente a se instalar na cidade e algumas passaram a exportar tecnologia. Segundo Marcos David, em entrevista concedida ao site Seu Dinheiro, produtos e soluções desenvolvidos na região estão relacionados a áreas como câmeras, alarmes de segurança, televisão digital, redes 5G e automação industrial.
Do Vale da Eletrônica ao Hacktown
A criação do Hacktown foi outro passo nessa história. Em 2014, Santa Rita buscava uma nova fase de desenvolvimento, desta vez com maior atenção à economia criativa e à inovação.
Foi nesse contexto que Marcos David, João Rubens Costa Fonseca e Carlos Henrique Vilela desenvolveram a ideia do festival, inspirada no SXSW, realizado no Texas, nos Estados Unidos.
Em entrevista concedida ao site Seu Dinheiro, David explicou que a intenção era criar um evento capaz de transformar a própria cidade e, ao mesmo tempo, estabelecer uma conversa com o mundo.
A primeira edição, em 2016, esperava apenas 50 participantes, mas recebeu 600. No mesmo ano, uma segunda edição chegou a 1,5 mil pessoas. Em 2017, uma parceria com o Google levou o público para aproximadamente 4 mil participantes.
Desde então, o evento cresceu e ajudou a colocar Santa Rita no mapa nacional da inovação.
Mais do que o tamanho do festival, porém, o caso da cidade revela algo maior: inovação não precisa nascer exclusivamente nas capitais ou nos grandes centros. Com instituições de ensino, empresas, mão de obra qualificada e uma estratégia de desenvolvimento local, municípios pequenos também podem criar ecossistemas capazes de atrair talentos, negócios e investimentos.
Em entrevista concedida ao site Seu Dinheiro, David defende justamente essa possibilidade: que a experiência de Santa Rita possa inspirar outras cidades brasileiras a desenvolver suas próprias vocações tecnológicas.
A história do município mostra que uma cidade das startups não precisa ter milhões de habitantes. Precisa, antes, criar condições para que conhecimento vire negócio, e para que o negócio ajude a transformar o território.
- Com informações de Seu Dinheiro

