Qualidade do ar em Nova York: pedágio urbano não melhorou, mas também não piorou

por Grupo Editores Blog.

Quando Nova York implementou seu programa de pedágio urbano em janeiro de 2025, uma das preocupações mais frequentes era que motoristas desviassem de Manhattan para bairros vizinhos em busca de rotas alternativas, piorando a qualidade do ar nessas regiões. Um estudo divulgado em agosto pelo Departamento de Saúde da cidade respondeu a essa pergunta com clareza: isso não aconteceu. Mas a pesquisa também trouxe uma conclusão que os defensores do programa precisam assimilar: o pedágio também não melhorou materialmente a qualidade do ar na zona de cobrança nem nas comunidades de justiça ambiental ao redor.

O que o estudo mediu e o que encontrou

A pesquisa acompanhou dados de 2025 e os comparou com estimativas do que a qualidade do ar seria sem o programa de pedágio. O foco foram poluentes diretamente relacionados ao tráfego: material particulado fino (PM2.5), dióxido de nitrogênio, óxido nítrico e carbono negro. Foram monitorados 73 pontos fora da zona de cobrança, mas dentro dos limites da cidade, incluindo áreas ao longo de grandes rodovias.

O resultado foi a ausência de mudanças significativas em qualquer direção. Houve níveis ligeiramente mais altos de poluição em pontos de monitoramento da EPA no Connecticut e no leste de Long Island, mas não em Nova Jersey. A conclusão está alinhada com a avaliação ambiental que a Administração Federal de Rodovias havia feito em 2023, que já havia concluído que o programa “não é um projeto de preocupação para a qualidade do ar.”

Por que a qualidade do ar é tão difícil de isolar

Glory Dolphin Hammes, CEO da IQAir North America, oferece uma explicação técnica para os limites do que qualquer política de trânsito pode alcançar em termos de ar. “A qualidade do ar é literalmente uma função do clima e dos nossos padrões de vento, e nossa topografia geográfica. Seria muito difícil isolar uma área tão pequena para tentar demonstrar uma melhoria.”

O ponto é relevante: Nova York é uma metrópole de mais de oito milhões de pessoas em que os fluxos de ar, as emissões industriais, a queima de combustíveis em prédios e o tráfego de toda a região metropolitana contribuem para a qualidade do ar em qualquer ponto da cidade. Reduzir os carros numa área de Manhattan, por mais relevante que seja para o congestionamento, é uma intervenção numa fração de um sistema muito maior.

Segundo o estudo, o tráfego responde por aproximadamente 14% das emissões de PM2.5 e 20% das emissões de NOx em Nova York. Isso significa que mesmo uma redução significativa no volume de veículos na zona de pedágio representaria uma mudança modesta no total de emissões da cidade.

O que o programa está entregando de fato

Janno Lieber, presidente e CEO da Autoridade Metropolitana de Transportes de Nova York, comentou os resultados com pragmatismo: “Antes de ligarmos as câmeras, havia preocupação com o potencial de aumento da poluição causado por motoristas tentando evitar a tarifa. Como este estudo confirma, isso não aconteceu.”

O que o programa está entregando com mais clareza é redução de congestionamento, tempos de deslocamento mais previsíveis e receita para a MTA investir em melhorias no sistema de transporte público. Em paralelo, o programa gerou um investimento de 20 milhões de dólares da MTA para melhorar os resultados da asma infantil no Bronx, uma área com histórico de injustiça ambiental e altas taxas da doença.

O senador estadual Gustavo Rivera, que representa o Bronx, foi direto: “Fico tranquilizado com os dados mostrando que o pedágio urbano não piorou a qualidade do ar em comunidades com longa história de injustiça ambiental como a minha.”

Quando o pedágio urbano funciona para o ar

Dolphin Hammes aponta para uma condição importante: esse tipo de política funciona melhor em cidades com sistemas de transporte público robustos, porque cria uma alternativa real ao carro. “Esses tipos de políticas serviriam muito bem em conjunto com excelente transporte público, que nem todas as cidades deste país têm.”

As cidades que ela cita como candidatas ao modelo, Boston, Chicago e San Francisco, têm em comum redes de metrô e ônibus que permitem que moradores abandonem o carro sem comprometer significativamente sua mobilidade. Onde esse sistema não existe, o pedágio urbano pode reduzir o tráfego na zona de cobrança enquanto transfere o problema para outras partes da cidade, sem resolver o problema mais amplo de qualidade do ar.

O que isso ensina para outras cidades

O caso de Nova York é útil precisamente porque separa o que o pedágio urbano pode e o que não pode fazer. Ele pode reduzir congestionamento. Pode gerar receita para transporte público. Pode diminuir o tempo de deslocamento e melhorar a previsibilidade das rotas. Mas não é uma ferramenta de qualidade do ar em si mesma, pelo menos não em cidades onde o tráfego é apenas uma parte de um sistema muito mais complexo de fontes de emissão.

 

 

Texto adaptado de smartcitiesdive.com

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