Prevenção de enchentes: Nova York está transformando canteiros de rua em esponjas para a chuva

por Grupo Editores Blog.

Nova York vai gastar 8,4 milhões de dólares para transformar três canteiros centrais de concreto em Queens num tipo diferente de infraestrutura urbana: sistemas que absorvem a água da chuva antes que ela sobrecarregue os esgotos e cause enchentes. O que parece uma intervenção pequena é, na verdade, parte de uma estratégia que a cidade constrói desde 2010 para enfrentar um problema que só vai piorar.

Por que canteiros de rua viram prioridade climática

A lógica por trás da conversão de canteiros de concreto em infraestrutura verde tem a ver com como as cidades lidam com a água da chuva. Em Nova York, cerca de 60% do sistema de esgoto é combinado: um único cano carrega tanto o escoamento de águas pluviais quanto o esgoto doméstico. Quando chove muito, o volume supera a capacidade das estações de tratamento, e a mistura de esgoto e água da chuva transborda para rios e baías sem tratamento.

O projeto anunciado pelo prefeito Zohran Mamdani e pela governadora Kathy Hochul substitui os canteiros e sarjetas de concreto dos bairros de Whitestone, Forest Hills e Queens Village por aberturas de entrada que desviam a água das ruas para sistemas de armazenamento subterrâneos e áreas plantadas com espécies nativas, arbustos, gramíneas e flores silvestres. Estima-se que os três canteiros juntos capturam cerca de 5 milhões de galões de água pluvial por ano, reduzindo o escoamento que de outra forma iria para o Rio Leste, a Baía de Flushing e a Baía de Jamaica.

O estado de Nova York está financiando parte do projeto com 5 milhões de dólares em subsídios de seus programas de inovação verde e melhoria da qualidade da água.

Estratégia de longo prazo que começou em 2010

Foto / NYC Water – Flickr

Esse projeto não nasceu do nada. Em 2010, o então prefeito Michael Bloomberg apresentou um plano de 2,4 bilhões de dólares para capturar e reter o escoamento de águas pluviais antes que ele entrasse no sistema de esgoto. Desde então, Nova York vem construindo uma rede de infraestrutura verde distribuída, projetada para desacelerar, absorver e filtrar a água da chuva capturando-a na fonte.

A meta atual é reduzir os transbordamentos em áreas de esgoto combinado em 6,3 bilhões de litros por ano até dezembro de 2040. O projeto dos canteiros em Queens é uma das peças menores dessa rede, mas representa o princípio que a orienta: intervenções distribuídas, em escala de bairro, que somadas criam capacidade sistêmica.

Em 2022, Nova York lançou o primeiro projeto desse tipo em Arverne, também no Queens, convertendo três canteiros em infraestrutura verde. O atual expande o modelo para outras partes do bairro.

O furacão Ida e o que ele deixou como lição

A urgência de investimentos em gestão de águas pluviais ficou evidente em setembro de 2021, quando os resíduos do furacão Ida atingiram Nova York. Em uma hora, a cidade registrou o volume de chuva mais alto de sua história. O resultado: enchentes generalizadas, centenas de milhões de dólares em danos e 13 mortes, a maioria em apartamentos de subsolo que foram inundados enquanto moradores dormiam.

No ano seguinte, a cidade iniciou um programa piloto de gestão de “chuvas torrenciais”, que utiliza espaços abertos para armazenar temporariamente a água pluvial durante tempestades intensas, aliviando a pressão sobre o sistema de drenagem até que ele consiga absorver o volume. Esse programa opera em escala de bairro; o projeto dos canteiros é uma abordagem mais distribuída e menor, que complementa os projetos maiores.

As projeções climáticas para Nova York tornam esse investimento ainda mais urgente: a cidade deve experimentar até 30% mais chuva anual e 150% mais dias com mais de 2,5 centímetros de chuva até o final do século. Com o aumento do nível do mar e dos lençóis freáticos, a água da chuva vai drenar ainda mais lentamente, aumentando o risco de enchentes mesmo em eventos que hoje seriam gerenciáveis.

Lições que ficam para prevenir enchentes

A estratégia de Nova York combina dois princípios que funcionam bem juntos: intervenções distribuídas em escala de bairro e uma visão sistêmica de longo prazo com metas quantificadas. Nenhum canteiro isolado resolve o problema de enchentes de uma metrópole. Mas uma rede de canteiros, jardins de chuva, pavimentos permeáveis e sistemas de armazenamento subterrâneo, somados e integrados, cria uma capacidade de absorção que o concreto nunca poderia oferecer.

Para cidades brasileiras que enfrentam enchentes cada vez mais frequentes e intensas, especialmente nas capitais que combinam urbanização densa, drenagem insuficiente e chuvas extremas, o modelo de Nova York aponta para uma alternativa ao ciclo de obras de macrodrenagem que historicamente dominou os investimentos nessa área. Infraestrutura verde de pequena escala, distribuída pelo território urbano, não substitui os grandes sistemas de drenagem, mas pode reduzir significativamente o volume que os sistemas precisam processar, especialmente nos eventos de chuva intensa em que eles mais falham.

“À medida que Nova York vê cada vez mais tempestades intensas devido às mudanças climáticas, é crucial melhorar e repensar nossa infraestrutura para proteger os nova-iorquinos contra as crescentes ameaças ambientais”, disse o comissário de Transportes de Nova York, Mike Flynn. O mesmo raciocínio se aplica a qualquer cidade que ainda trate as calçadas e canteiros como espaço morto entre os carros e os prédios.

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