Texto adaptado de businessofgovernment.org
Governos ao redor do mundo gastam fortunas em tecnologia sem conseguir mudar a forma como funcionam. Parte do problema está numa falsa dicotomia que persiste nas salas de planejamento: modernizar os sistemas existentes ou transformá-los completamente? Uma pesquisa com diretores de tecnologia seniores nos Estados Unidos e na Austrália concluiu que essa é a pergunta errada, e que enquanto os gestores públicos ficarem presos nela, continuarão acumulando dívida tecnológica e adiando as mudanças que realmente importam.
Duas palavras, uma confusão persistente
Modernização digital significa atualizar o que já existe: migrar para a nuvem, digitalizar arquivos físicos, fortalecer a segurança cibernética, substituir equipamentos obsoletos. Esse caminho melhora a eficiência e a segurança sem mudar fundamentalmente como a organização funciona, quem faz o quê ou como o cidadão experimenta os serviços públicos. É incremental, menos arriscado e mais fácil de justificar dentro de um ciclo orçamentário.
Transformação digital é uma escolha estratégica diferente: tornar o digital a lógica organizadora de como o governo opera. Em vez de usar ferramentas melhores para fazer as mesmas coisas de sempre, a transformação cria formas novas de entregar valor público. Isso exige mudanças de cultura, estrutura, competências e nos modelos de relacionamento com o cidadão. É disruptiva, cara, multianual e politicamente difícil.
A maioria das iniciativas digitais do setor público fica em algum lugar entre esses dois polos, sem que as lideranças percebam. Um projeto começa como modernização e acaba tendo implicações que se propagam para processos e cultura organizacional. Ou uma iniciativa de transformação é reduzida à modernização quando o financiamento se revela insuficiente. “Uma das nossas primeiras questões é, provavelmente, de perspectiva estratégica: diferenciar o que é um esforço de modernização e o que é um esforço de transformação”, disse um executivo público sênior entrevistado para a pesquisa.
A lógica orçamentária que mantém os governos parados
A falsa dicotomia persiste por razões compreensíveis. Modernização oferece segurança: resultados visíveis dentro de um ciclo orçamentário ou mandato político, custo inicial menor e capacidade de mostrar entregas antes da próxima eleição. Transformação oferece o oposto: benefícios de longo prazo e difusos, custos concentrados no início, progresso que se estende por múltiplas administrações. O líder que aprova o investimento raramente é o que colhe os resultados.
O resultado é um ciclo bem documentado: o governo investe em modernização, adia a transformação, acumula dívida técnica, gasta mais em modernização para gerenciar essa dívida e adia a transformação ainda mais. Nos Estados Unidos, agências federais gastam aproximadamente 80% do orçamento anual de tecnologia, que supera 100 bilhões de dólares, apenas para manter sistemas funcionando. O dinheiro que deveria construir o futuro vai para sustentar o passado.
O caso britânico do programa Universal Credit ilustra o custo de adiar a transformação. Os custos projetados ao longo de toda a vida do programa saltaram de 2,2 bilhões de libras para aproximadamente 12,8 bilhões, em grande parte porque sistemas antigos e novos precisaram operar em paralelo por anos. O preço de não ter transformado antes foi imenso.
Um espectro, não uma escolha binária
Modernização e transformação não são opções opostas num cardápio. São regiões num continuum, e a maioria das iniciativas digitais envolve elementos dos dois simultaneamente. A modernização de infraestrutura cria a base técnica que torna a transformação possível. Os pilotos de transformação geram os argumentos de negócio e os aprendizados técnicos que justificam o investimento em modernização.
O que a pesquisa propõe é um “pensamento híbrido de modernização-transformação digital”, uma estratégia deliberada que reconhece as duas abordagens como complementares e desenha os investimentos de acordo. Os líderes governamentais não precisam escolher uma ou outra: podem optar pelas duas, na proporção certa, no momento certo, com visão de como cada passo viabiliza o próximo.
O que isso significa para gestores públicos brasileiros
No Brasil, o debate sobre transformação digital no setor público frequentemente oscila entre dois extremos: a tentação de comprar sistemas novos sem mudar processos, ou projetos ambiciosos de transformação que naufragam por subestimar a resistência cultural e os custos de transição.
A lição da pesquisa americana e australiana é que nenhum dos extremos funciona bem. Modernizar sem estratégia de transformação acumula dívida técnica. Tentar transformar sem uma base modernizada é construir sobre areia. O que diferencia os governos que avançam dos que ficam presos é a capacidade de gerir os dois movimentos ao mesmo tempo, com clareza sobre o que cada iniciativa está tentando alcançar e como ela abre caminho para o próximo passo.
Para secretários de tecnologia, diretores de TI e gestores responsáveis por projetos de governo digital em municípios e estados brasileiros, essa distinção é a diferença entre gastar bem e gastar muito para continuar no mesmo lugar.

