Quando pesquisadores da Brookings Institution começaram a rastrear os gastos federais dos Estados Unidos com inteligência artificial em 2022, a descrição que usaram foi precisa: um mercado caótico, imaturo e dominado por pequenos contratos experimentais. Quatro anos depois, o cenário se transformou de forma que os próprios pesquisadores admitem ter surpreendido suas expectativas. Os números americanos são, antes de tudo, um espelho do que acontece quando um governo decide que IA é prioridade de Estado, com todas as promessas e contradições que essa decisão carrega.
Explosão dos gastos: de caos a bilhões em quatro anos
Entre 2024 e 2026, os gastos federais americanos com IA saltaram de 675 milhões de dólares para 7,2 bilhões de dólares em valores comprometidos, uma alta de 966%. O valor potencial total dos contratos foi ainda mais expressivo: de 4,6 bilhões para 91,8 bilhões de dólares, crescimento de 1.912% em dois anos. Para contextualizar: o gasto potencial com IA pelo governo federal americano em 2026 é maior do que o PIB de muitos países de renda média.
Esses números fazem parte de uma tendência global. Os gastos mundiais com inteligência artificial devem alcançar 2,52 trilhões de dólares em 2026, segundo projeções citadas pela Brookings. O plano de ação de IA do governo Trump, que enfatiza desregulação, expansão de infraestrutura e domínio global da tecnologia, acelerou dramaticamente esse processo no setor público americano.
Quase tudo vai para defesa
O dado mais revelador da análise da Brookings não é o volume total, mas sua concentração. O Departamento de Defesa americano respondeu por 1.319 dos 1.743 contratos de IA firmados em 2026 e por 98,9% de todo o valor potencial dos contratos, equivalente a 90,7 bilhões de dólares, crescimento de 1.605% em relação a 2024. Agências civis como o Departamento de Saúde, a NASA e o Departamento de Comércio somadas tornaram-se, nas palavras dos pesquisadores, “um erro de arredondamento”.
Essa concentração levanta questões que vão além dos Estados Unidos. Quando quase toda a inovação pública em IA de um país é orientada para fins militares, o que acontece com as agências que prestam serviços à população? Como um ministério da saúde ou uma secretaria de educação constroem capacidade em IA quando operam com uma fração mínima dos recursos disponíveis?
E como um país que investe predominantemente em IA de defesa se posiciona como liderança global em práticas e políticas de governança de IA? Os próprios pesquisadores da Brookings foram diretos: não está claro se os EUA estão oferecendo qualquer liderança perceptível nessa dimensão.
Estrutura do mercado: grandes firmas e inovação nas margens
O ecossistema de fornecedores americanos de IA para o governo reflete uma dualidade interessante. Empresas grandes e consolidadas como Palantir, Booz Allen Hamilton e SAIC dominam o valor total dos contratos. Ao mesmo tempo, 87% dos fornecedores têm apenas um ou dois contratos, sinal de que o mercado ainda está aberto à experimentação e a novos entrantes.
Esse equilíbrio entre escala e experimentação é saudável do ponto de vista da inovação. Mais preocupante é a baixa participação de empresas pequenas e de propriedade feminina: apenas 12 contratos foram reservados para empresas de veteranos com deficiência e apenas um foi para uma empresa de propriedade de mulheres. Para os pesquisadores, ignorar esse conjunto de fornecedores é um erro estratégico, não apenas de equidade.
O que esses números ensinam para governos fora dos EUA
O caso americano é um laboratório acelerado de algo que outros governos, incluindo o Brasil, estão começando a enfrentar em escala menor: como estruturar a adoção de IA no setor público de forma que produza ganhos reais para a população, e não apenas contratos volumosos com grandes integradores de tecnologia.
Algumas lições emergem com clareza. Concentrar os investimentos em poucas categorias de serviços, como os EUA fizeram ao direcionar 98% dos gastos para serviços técnicos e de informação, limita o desenvolvimento de capacidade interna e a diversidade de casos de uso. Ignorar fornecedores menores e mais diversificados significa desperdiçar fontes importantes de inovação.
E orientar toda a estratégia de IA para um único fim, seja defesa nos EUA ou automação burocrática no Brasil, adia a conversa mais difícil e mais importante: como a inteligência artificial pode melhorar a vida de quem depende dos serviços públicos.
A Brookings conclui que o governo federal americano ainda está “na fase experimental da IA” e que os desenvolvimentos mais importantes ainda estão à frente. Para países que chegam a essa conversa com menos recursos, mas também com menos vícios adquiridos, essa janela de aprendizado pode ser mais valiosa do que parece.

