Cohousing: 46 aposentados em Campinas estão construindo futuro que asilos nunca oferecerão

por Grupo Editores Blog.

Quando você tiver 75 anos, onde vai morar?

Com filhos que mal têm tempo para almoço de domingo? Em um apartamento sozinho esperando delivery e assistindo Netflix? Em um asilo onde funcionário troca a cada seis meses e ninguém lembra seu nome?

Quarenta e seis pessoas em Campinas decidiram que nenhuma dessas opções serve. E estão construindo alternativa que não existia no Brasil: cohousing sênior.

Vila ConViver. Vinte e quatro mil metros quadrados no Jardim Alto da Cidade Universitária, Barão Geraldo. Trinta e quatro casas individuais de dois ou três quartos. Área comum gigante com cozinha coletiva, academia, espaços multiuso, quiosques.

Não é condomínio tradicional onde você não conhece vizinho. Não é asilo onde você perde autonomia, nem é república onde você divide espaço 24h. São casas próprias, mas decisões coletivas. 

Noventa por cento das unidades já têm dono e a obra começa este ano!

Como isso começou

  1. Grupo de Trabalho de Moradia da ADunicamp (Associação de Docentes da Unicamp) começa a discutir: como queremos envelhecer?

Professores aposentados, funcionários ainda na ativa, gente de fora da universidade. Todos com mesma inquietação: envelhecer sozinho é péssimo. Morar com filhos adultos é complicado. Asilo é última opção desesperada.

Tem que ter terceira via.

2016: ADunicamp divulga proposta para associados. Resposta surpreende. Dezenas de interessados.

Final de 2017: Fundam Associação de Moradores da Cohousing Sênior Vila ConViver. Formalizam juridicamente. Escrevem estatuto. Abrem conta. Começam a planejar.

2019: Compram terreno. Vinte e quatro mil metros quadrados. Não é doação. Não é parceria público-privada. É compra coletiva. Cada futuro morador entra com parte do investimento.

2025: Projeto arquitetônico pronto. Noventa por cento das casas vendidas. Diretoria nova tomando posse em março. Presidente Benedito Benedetti com objetivo claro: “Tirar do papel a Vila ConViver e concretizá-la em moradias, onde viveremos com segurança ao lado de amigos”. Doze anos entre ideia e execução. 

O que é cohousing 

Não é condomínio tradicional

Condomínio: você compra apartamento, cumprimenta vizinho no elevador, nunca mais fala com ele.

Cohousing: você participa de reuniões semanais, decide coletivamente reformas, organiza jantar comunitário sexta-feira.

Não e asilo

Asilo: instituição que cuida de você. Perda de autonomia. Rotina imposta. Funcionários que não te conhecem.

Cohousing: você mora na sua casa. Faz sua comida (ou usa cozinha comum se quiser). Toma suas decisões. Mas tem rede de apoio estruturada.

Também não é república

República: divisão total de espaço. Banheiro compartilhado. Cozinha comum obrigatória.

Cohousing: casa individual completa (cozinha, banheiro, quartos). Áreas comuns são opção, não obrigação.

Quando funciona

1. Solidão mata

Estudos mostram que solidão crônica aumenta risco de morte prematura em 50%. Mais que obesidade (30%). Mais que sedentarismo (20%).

Idoso sozinho em apartamento, sem família próxima, sem amigos na mesma fase de vida, morre mais cedo. De depressão. De doenças não diagnosticadas (não tem quem note sintoma). De acidentes domésticos (cai, ninguém acha).

2. Autonomia preservada

Maior medo de idoso não é morte. É perda de autonomia. Virar “peso”. Não poder decidir sobre própria vida.

Asilo tira autonomia. Morar com filhos adultos reduz autonomia (você vira “sogra/sogro que mora aqui”).

Cohousing mantém autonomia. Sua casa. Suas regras. Mas com rede de segurança: vizinho nota se você não aparece há dois dias. Alguém pode te levar ao médico. Alguém empresta escada quando você precisa trocar lâmpada.

3. Redução de custos

A manutenção individual é cara. Cada casa com próprio jardineiro, própria piscina, próprio gerador.

Cohousing compartilha custos. A academia coletiva custa fração de mensalidade individual. Cozinha industrial permite cozinhar para 20 pessoas com economia de escala. Gerador comum, vigilância comum, manutenção comum.

4. Propósito

Idoso que acorda sem ter o que fazer, sem ser útil, sem projeto, definha.

 O cohousing cria propósito estrutural. Reuniões para decidir reformas. Comissões para organizar eventos. Horta coletiva que alguém precisa regar. Sempre tem algo acontecendo. Sempre tem como contribuir.

Exemplos globais de cohousing

Dinamarca

Primeira cohousing moderna do mundo: Sættedammen, perto de Copenhague, 1972.

Arquitetos e famílias jovens cansados de apartamentos isolados criaram comunidade com casas individuais + casa comum enorme (cozinha, sala de jantar, lavanderia, salas de atividades).

Hoje Dinamarca tem centenas de cohousings. Multigeracionais e sênior. Parte da cultura habitacional do país.

Estados Unidos

Arquitetos Kathryn McCamant e Charles Durrett visitaram Dinamarca, voltaram, escreveram livro Cohousing: A Contemporary Approach to Housing Ourselves (1988).

Primeira cohousing americana: Muir Commons (Davis, Califórnia), 1991.

Hoje EUA têm 170+ cohousings. Maioria multigeracional, mas crescem as sênior.

Silver Sage Village (Boulder, Colorado): 16 casas para maiores de 55 anos. Área comum com cozinha, biblioteca, oficina de carpintaria.

Reino Unido

Londres, 2016. Vinte e cinco mulheres maiores de 50 anos construíram prédio de apartamentos + área comum.

Por que só mulheres? Mulheres vivem mais que homens. Maioria dos idosos sozinhos são mulheres. E mulheres mais velhas enfrentam invisibilidade social. Cohousing cria comunidade de apoio.

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