Texto adaptado de smartcitiesdive.com
Bibliotecas são centrais na vida comunitária americana. Cerca de 81% dos americanos vivem a 10 minutos de carro de uma biblioteca pública, segundo relatório do GAO (Government Accountability Office, órgão de fiscalização do Congresso dos EUA).
Mas a maioria dos prédios está caindo aos pedaços.
O relatório, baseado em pesquisa com cerca de 16.400 bibliotecas públicas em todos os 50 estados, Washington D.C. e quatro territórios americanos, encontrou manutenção adiada, sistemas envelhecidos e opções limitadas de financiamento que colocam serviços cívicos essenciais em risco.
“Isso mostra até que ponto bibliotecas são instituições importantes por todo o país”, disse Daniel Marroni, diretor de educação no GAO.
Muito mais que livros
Os pesquisadores descobriram que bibliotecas oferecem muito mais que livros.
“Ouvimos histórias sobre alta demanda por salas de reunião em bibliotecas, como algumas são centros de emergência durante clima extremo e como muitas são centro de recursos para pessoas em situação de rua”, disse Marroni. “Uma biblioteca frequentemente tem papel e importância centrais [em um município] hoje em dia.”
São pontos de acesso gratuito à internet para quem não tem em casa. Espaço de estudo para estudantes. Refúgio no calor extremo do verão (ar-condicionado) ou frio do inverno (aquecimento). Centro comunitário onde acontecem reuniões de bairro, clubes de leitura, cursos gratuitos.
Mas os problemas de manutenção e reparo estão impedindo bibliotecas de cumprir essas missões.
O que está quebrado nas bibliotecas americanas
Elevadores, sistemas de aquecimento/resfriamento (HVAC), pisos e telhados são os itens mais frequentemente marcados para substituição ou reparo, especialmente em prédios mais antigos, que também são menos resilientes a desastres naturais e clima extremo.
O relatório estima que 47% das bibliotecas do país têm mais de 60 anos.
A matemática do abandono
Biblioteca construída em 1964 (60 anos atrás):
- Telhado projetado para durar 30 anos → Duas substituições atrasadas
- Sistema elétrico dos anos 1960 → Não aguenta carga moderna (computadores, ar-condicionado)
- Encanamento original → Vazamentos crônicos
- Janelas de vidro simples → Ineficiência energética brutal
- Acessibilidade zero → Sem rampa, sem elevador funcional, sem banheiro adaptado
E não há dinheiro para consertar.
Cidades grandes sabem, cidades pequenas sofrem
Na maior parte, cidades grandes estão cientes dos problemas com suas instalações de biblioteca, disse Marroni.
“Mas ouvimos em muitos casos que municípios pequenos e médios não tinham registro detalhado do estado de seu prédio de biblioteca porque as pessoas trabalhando lá não são gestores de instalações — são bibliotecários”, disse ele.
Bibliotecário não foi treinado para avaliar estrutura de telhado. Não sabe dizer se sistema elétrico está sobrecarregado. Não tem orçamento para contratar engenheiro que inspecione.
“Ouvimos anedoticamente de bibliotecas pequenas e médias que elas conseguem mais ou menos se virar, mas quando algo realmente quebra, isso vira grande problema porque não têm orçamento” para consertar.
A realidade das bibliotecas pequenas
Segunda-feira de manhã. Bibliotecária chega, liga o ar-condicionado. Nada.
Liga para prefeitura. Secretário diz que não tem verba para técnico antes do mês que vem.
Biblioteca opera três semanas no calor de 35°C. Idosos param de ir (risco de saúde). Estudantes procuram outro lugar.
Quando técnico finalmente vem, descobre que sistema inteiro precisa ser trocado. Custo: R$ 150 mil.
Orçamento anual da biblioteca: R$ 80 mil (salários, livros, luz, água, tudo).
Solução? Não tem. Biblioteca opera sem ar-condicionado. Vira forno no verão.
Financiamento: onde (não) está o dinheiro
Embora a grande maioria das bibliotecas dependa de financiamento local para manutenção e reparos, algum financiamento federal está disponível, observa o relatório:
American Rescue Plan Act: Dinheiro federal da pandemia (já acabou)
USDA (Departamento de Agricultura): Programa para bibliotecas rurais (pouco, competição alta)
National Endowment for the Humanities: Financiamento para prédios históricos (processo longo, aprovação difícil)
Institute of Museum and Library Services (IMLS): Maior fonte federal de financiamento para bibliotecas, mas fornece grants para programas e serviços, não para construção ou reparos de prédios.
Ou seja: o governo federal paga para biblioteca comprar livros, oferecer cursos, fazer eventos. Não paga para consertar telhado.
Marroni disse que bibliotecas também podem buscar financiamento estadual, territorial ou tribal e dinheiro de organizações sem fins lucrativos e fundações que se especializam em instituições culturais.
Mas competição é brutal. E dinheiro é pouco.
Brasil: situação pior
Se bibliotecas americanas estão caindo aos pedaços, bibliotecas brasileiras estão em estado terminal.
Números brasileiros
Brasil tem cerca de 6 mil bibliotecas públicas (dado Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas).
Para população de 203 milhões, é uma biblioteca para cada 34 mil habitantes.
EUA: 16.400 bibliotecas para 330 milhões de pessoas = uma para cada 20 mil habitantes.
Brasil está atrás.
Estado dos prédios
Não há dados consolidados nacionais sobre estado físico das bibliotecas brasileiras. Mas visita a qualquer biblioteca municipal de cidade pequena ou média revela:
- Prédios de 30, 40, 50 anos sem reforma
- Telhados vazando
- Fiação elétrica exposta
- Banheiros quebrados
- Ar-condicionado inexistente ou quebrado
- Acessibilidade zero (escadas, sem rampa, sem elevador)
- Acervo mofado (infiltração + umidade)
- Mobiliário dos anos 1980
Orçamento inexistente
Bibliotecas municipais brasileiras operam com migalhas:
- Salário de 1-3 bibliotecários
- Conta de luz
- Compra esporádica de livros (quando sobra)
- Manutenção? Só em emergência crítica
Digitalização atrasada
Bibliotecas americanas oferecem:
- Wi-Fi gratuito
- Computadores para acesso público
- Empréstimo de e-books
- Cursos online
- Acesso a bases de dados acadêmicas
Bibliotecas brasileiras:
- Catálogo em fichas de papel (muitas ainda)
- Wi-Fi? Às vezes
- Computadores públicos? Poucos, velhos, quebrados
- E-books? Raras exceções
Por que isso importa
1. Desigualdade de Acesso à Informação
Criança de família rica tem internet em casa, computador, tablet, assinatura de serviços digitais.
Criança de família pobre depende de biblioteca pública.
Se biblioteca não tem computador funcionando, Wi-Fi estável, acervo atualizado, criança pobre fica para trás.
2. Isolamento de idosos
Biblioteca é ponto de encontro social para idosos. Ar-condicionado no verão (muitos não têm em casa), atividades gratuitas, convivência.
Biblioteca fechada ou degradada = idoso isolado em casa.
3. Espaço de estudo perdido
Estudante de escola pública que mora em casa pequena, barulhenta, sem mesa adequada, depende de biblioteca para estudar.
Biblioteca sem estrutura = estudante sem lugar para estudar.
4. Centro comunitário desperdiçado
Biblioteca poderia ser centro de cursos gratuitos (informática, idiomas, preparação para concursos), palestras, eventos culturais.
Sem investimento, vira apenas depósito de livros velhos com movimento de 5 pessoas por dia.

