San José, Califórnia, realizou na semana passada seus primeiros workshops gratuitos de IA para residentes no Centro de IA para o Bem Cívico e Social da cidade, centro de educação pública pioneiro focado em expandir acesso à inteligência artificial.
Os workshops fazem parte da iniciativa IA para Todos, apoiada pela associação empresarial Bay Area Council, OpenAI, Google e Anthropic, para oferecer ferramentas e educação em IA através da Biblioteca Pública de San José.
A iniciativa segue lançamento de programa de capacitação em IA que a cidade criou para treinar servidores municipais a usar IA “de forma responsável e eficaz”, segundo o prefeito Matt Mahan.
“IA está transformando como vivemos e trabalhamos, e San José está garantindo que todo residente se beneficie”, disse Mahan em comunicado.
Mais que teoria: IA já funciona na cidade
San José não está apenas falando sobre IA, está usando. A cidade incorporou inteligência artificial em várias operações do governo local, incluindo melhorar segurança viária com câmeras que detectam buracos e detritos automaticamente, e agilizar licenciamento habitacional com análise automatizada de documentos.
Depois de adicionar IA à priorização semafórica, a cidade reportou este ano aumento de 20% na velocidade de ônibus de transporte público. Semáforos detectam ônibus se aproximando e estendem sinal verde, reduzindo tempo de viagem.
Workshops para quem mais precisa
Os workshops gratuitos de San José pretendem dar aos residentes “as ferramentas, treinamento e confiança para ter sucesso na era da IA”, disse Mahan.
Os primeiros workshops em 8 de abril focaram em como idosos podem usar IA em suas vidas diárias e como candidatos a emprego podem usar IA para aplicações de trabalho.
“IA pode economizar tempo das pessoas e tornar tarefas cotidianas mais fáceis, mas somente se as pessoas souberem como usá-la”, disse Mattie Zazueta, do departamento de assuntos globais da OpenAI. “Expandir alfabetização em IA é uma das coisas mais importantes que podemos fazer para garantir que os benefícios sejam amplamente compartilhados. A iniciativa IA para Todos é modelo forte de como cidades podem liderar dando aos residentes acesso às ferramentas e ao treinamento para usá-las.”
Por que isso importa
1. Desigualdade digital
Executivos de tecnologia, advogados, médicos já usam IA diariamente — ChatGPT para rascunhar emails, Copilot para analisar dados, ferramentas especializadas para diagnósticos.
Idosos, desempregados, trabalhadores de baixa renda ficam para trás. Não por incapacidade, mas por falta de acesso e treinamento.
San José reconhece isso e age.
2. Biblioteca é agente de transformação
Bibliotecas públicas americanas enfrentaram crise de relevância na era digital. Muitas se reinventaram como centros comunitários, espaços maker, pontos de acesso à internet.
San José dá próximo passo: biblioteca vira centro de alfabetização em IA. Não apenas livros sobre tecnologia — treinamento prático, acesso a ferramentas premium, suporte individualizado.
3. Parceria público-privada que funciona
OpenAI, Google e Anthropic não são apenas patrocinadores passivos. Fornecem acesso gratuito a ferramentas (ChatGPT Plus, Gemini Advanced, Claude Pro), treinam instrutores, desenvolvem currículo.
Empresas ganham goodwill, dados sobre como pessoas comuns usam IA, potencial base de clientes futura. Cidade ganha capacitação para população sem gastar milhões. Win-win.
O que o Brasil pode aprender sobre treinamento de IA
Bibliotecas subutilizadas
Brasil tem mais de 6 mil bibliotecas públicas. Maioria tem acervo desatualizado, pouco movimento, orçamento mínimo. Mas têm espaço, computadores (mesmo que velhos), e confiança da comunidade.
Podem virar centros de alfabetização digital e em IA (como San José fez) com custo relativamente baixo.
Parcerias locais
Se Google, OpenAI e Anthropic não vão patrocinar cidades brasileiras em breve, universidades públicas podem. USP, Unicamp, UFMG, UFRJ têm departamentos de ciência da computação. Alunos de mestrado/doutorado podem dar workshops em bibliotecas como extensão universitária.
Foco em populações vulneráveis
San José começou com idosos e desempregados, grupos que mais precisam mas têm menos acesso. Brasil deveria seguir mesma lógica: capacitar quem corre risco de ficar para trás, não quem já está à frente.
Desafios brasileiros
Infraestrutura: Muitas bibliotecas não têm internet rápida ou computadores suficientes. Solução: parcerias com empresas de telecom (desconto em internet dedicada) e doação de equipamentos.
Capacitação de Instrutores: Bibliotecários não são especialistas em IA. Precisam ser treinados primeiro. Universidades ou Sebrae podem ajudar.
Sustentabilidade: Workshop pontual não basta. Precisa programa contínuo. Orçamento municipal deve contemplar.

