Texto adaptado de smarcitiesdive.com
Com o futuro da FEMA (Agência Federal de Gestão de Emergências dos EUA) em risco, cidades e estados americanos estão assumindo mais responsabilidade por preparação e recuperação de desastres. E mesmo nesta era de orçamentos municipais apertados, agora não é hora de reduzir gastos com preparação, segundo pesquisa da Allstate, Câmara de Comércio dos EUA e sua fundação.
O número choca: cada dólar não investido em resiliência a desastres hoje pode resultar em até US$ 33 de atividade econômica futura perdida após um desastre, segundo relatório “Beyond the Payoff: How Investments in Resilience and Disaster Preparedness Protect Communities”.
No Brasil, a matemática é igualmente brutal. 2.807 dos 5.570 municípios já estão em situação de alta ou muito alta vulnerabilidade climática. Os prejuízos nesta década somam R$ 132 bilhões. O número de eventos extremos relacionados à chuva triplicou desde os anos 1990.
“Antes, ninguém realmente colocava um valor em dólares nisso — onde há retorno sobre investimento”, diz Marc DeCourcey, vice-presidente sênior da Fundação da Câmara de Comércio dos EUA. “Preparação parecia uma coisa boa de fazer, mas como quantificar? Foi aí que cavamos fundo — e fizemos descobertas notáveis de que não se trata apenas de danos físicos, mas também de impacto econômico”.
Brasil: metade dos municípios em risco
84,5% dos municípios Afetados
Segundo plataforma Adapta Brasil e relatório Cidades Verdes-Azuis Resilientes, 84,5% do total de municípios brasileiros e 324,6 milhões de pessoas foram afetados por desastres na última década.
Metade dos municípios não tem plano diretor atualizado. Mesmo entre os que têm, há pouca integração com planos climáticos. Em 2023, o Brasil foi o país que mais registrou deslocamentos internos por desastres nas Américas: 745 mil pessoas atingidas.
8,2 milhões vivem em áreas de risco
O Brasil tem 12.348 favelas e comunidades urbanas, com 16,5 milhões de pessoas. Mais de 8,2 milhões delas vivem em áreas sujeitas a inundações, enxurradas e deslizamentos.
Os desastres não são causados apenas pelo evento climático, mas pela interação entre evento e vulnerabilidade do território, das pessoas e do ambiente construído exposto.
EUA: apenas 15% se sentem preparados
Pesquisa com gestores de emergências, profissionais de risco e autoridades estaduais e locais nos EUA descobriu que apenas 15% acreditam que o país está “muito preparado” para gerenciar desastre típico.
Metade dos entrevistados disse que esforços de resiliência entre setores público e privado são mal coordenados. E 59% disseram que processos mais claros e melhor alocação de recursos teriam maior impacto em melhorar essas parcerias.
“Para líderes de comunidades locais, a mensagem que precisa passar é que estes são investimentos na economia“, afirma Rich Loconte, vice-presidente sênior da Allstate.
70 mil empregos preservados
O financiamento de resiliência estabiliza mercados de trabalho locais. Em áreas propensas a furacões, pode prevenir perda de mais de 70 mil empregos.
“Não é responsabilidade de um setor só”, diz Loconte. “Tem que acontecer em todos os setores. Precisamos de ampla coalizão de parceiros para efetuar mudança”.
Brasil investe, mas ainda é pouco
R$ 17 bilhões (2023-2024) + R$ 6,8 bilhões (PAC 2025)
Entre 2023 e 2024, o Ministério das Cidades disponibilizou mais de R$ 17 bilhões para obras de contenção de encostas e drenagem. Em 2025, o montante recebeu reforço de R$ 6,8 bilhões na nova seleção do PAC.
“A determinação do presidente Lula é que a gente cuide de gente, sempre com responsabilidade com nosso meio ambiente”, afirma o ministro Jader Filho.
Pró-Cidades: R$ 1,6 bilhão anual
O programa financia ações de sustentabilidade para adaptar cidades às mudanças climáticas. R$ 1,6 bilhão por ano disponíveis dentro do Programa Cidades Verdes Resilientes.
Condições favoráveis:
- Prazo de carência: 48 meses
- Pagamento: até 20 anos
- Juros baixos
BNDES Cidades Resilientes
Apoia municípios na implementação de solução integrada de resiliência, capacidade adaptativa e redução de riscos. Combina estruturação de projetos com possibilidade de financiamento à implementação.
35% dos municípios com planos até 2035
Meta nacional do Plano Clima Adaptação: garantir que todos os estados e ao menos 35% dos municípios brasileiros tenham Planos de Adaptação até 2035.
Reconhece necessidade de fortalecimento do Federalismo Climático como chave para implementação multissetorial e multinível.
As 6 alavancas de resiliência
O relatório americano delineou seis “alavancas de resiliência” que comunidades devem investir para maximizar impacto de gastos com preparação:
1. Design informado por risco
Adotar e aplicar códigos de construção resistentes a perigos, melhorar acesso a dados de risco e incentivar conformidade para reduzir vulnerabilidade estrutural e custos de recuperação.
No Brasil: A Lei 12.340/2010 exige que municípios elaborem mapeamentos de áreas de risco e planos de contingência. Porém, implementação é desigual.
2. Infraestrutura e mitigação pré-desastre
Modernizar infraestrutura usando princípios de design resiliente e soluções baseadas na natureza. Integrar resiliência ao planejamento de melhorias de capital.
Retorno: Cada dólar investido em mitigação economiza média de US$ 6 em custos futuros de desastres.
No Brasil: Programa Cidades Verdes Resilientes foca em seis temáticas: uso do solo, áreas verdes, soluções baseadas na natureza, tecnologias baixo carbono, mobilidade sustentável, gestão de resíduos.
3. Continuidade econômica e diversificação
Apoiar resiliência de pequenos negócios, expandir cobertura de seguros, investir em desenvolvimento de força de trabalho e fortalecer cadeias de suprimento.
No Brasil: Rio Grande do Sul (enchente 2024) mostrou que unidades habitacionais com melhores qualidades construtivas demonstraram maior resiliência. Presença de caixa d’água foi diferencial significativo durante interrupção no fornecimento.
4. Governança e liderança multissetorial
Estabelecer acordos de ajuda mútua, simplificar coordenação interagências e alinhar estratégias de resiliência com prioridades locais.
5. Engajamento cívico
Lançar campanhas de conscientização pública, engajar organizações de base comunitária e promover preparação em nível domiciliar para construir confiança e coesão social.
“A importância de estabelecer uma cultura de prevenção desde a infância nas escolas”, destaca ministro Jader Filho.
6. Medição de desempenho e responsabilização
Implementar métricas de resiliência, conduzir modelagem de risco e integrar métricas de desempenho em planejamento e orçamento.

