“A IA está afetando todas as nossas cidades. Estamos todos em modo de aprendizado”. A frase do prefeito Larry Klein, de Sunnyvale (Califórnia), resume o momento: governos locais ao redor do mundo estão implementando inteligência artificial em tudo — do gerenciamento de tráfego à aprovação de licenças de construção.
Garrett Gatewood, prefeito de Rancho Cordova, foi ainda mais direto: “A IA é o futuro da governança como um todo”.
Para Ryon Saenz, vice-diretor de tecnologia de Alexandria (Virgínia), o desafio em 2026 não é se os governos usarão IA, mas se terão governança adequada para garantir que os sistemas melhorem serviços sem corroer confiança pública.
Habitação: menos burocracia, mais casas
O Departamento de Planejamento de Los Angeles está testando IA que lê planos de desenvolvedores, verifica conformidade com códigos de zoneamento e sinaliza problemas automaticamente. Resultado? Menos tempo de revisão para pedidos de rotina e equipes liberadas para casos complexos.
“Processos lentos de aprovação atrasam desenvolvimento, adiam receitas fiscais e encarecem moradia”, explica Julie Workman, do escritório Saul Ewing. “Mesmo melhorias incrementais fazem diferença”.
A IA também reúne dados dispersos — zoneamento, disponibilidade habitacional, situação de rua — ajudando governos a entender onde falta moradia, onde há oferta restrita e quais populações estão sendo deixadas de fora.
Transporte: prevenir ao invés de remediar
Tradicionalmente, cidades usam relatórios de acidentes e dados de congestionamento para planejar transporte. “A IA está virando esse modelo de cabeça para baixo”, diz Andrew Rogers, da Modern Analytics for Roadway Safety.
Semáforos, câmeras e registros de manutenção processados por machine learning identificam áreas de risco e previnem acidentes antes que aconteçam. Planejadores gastam menos tempo reagindo e mais priorizando.
Ferramentas preditivas sinalizam freadas bruscas, excesso de velocidade e curvas agressivas em tempo quase real. “Você não precisa esperar meses por dados — pode corrigir o curso imediatamente”, afirma Rogers.
Câmeras lidar em carros mapeiam rodovias inteiras, incluindo condições sob o pavimento, identificando infraestrutura que pode falhar. E a IA compartilha soluções entre cidades: se Anchorage resolve um problema de segurança, a IA avisa Albuquerque que a solução já existe.
Brasil lidera na América Latina
Enquanto cidades americanas implementam IA gradualmente, o Brasil se destaca. Estudo da ServiceNow e Deloitte com 250 cidades em 78 países aponta três brasileiras na liderança: São Paulo, Curitiba e Niterói.
Os números impressionam:
- 65% das cidades testam IA para otimizar operações governamentais
- 64% aplicam IA em transporte público
- 62% monitoram riscos urbanos com IA
- 60% gerenciam infraestrutura urbana com IA
Cases de sucesso
São Paulo está entre as 10 principais cidades globais em detecção de fraudes com IA. O Centro de Gerenciamento de Tráfego otimiza semáforos em tempo real, reduzindo congestionamentos.
Curitiba usa IA para modelos climáticos e resiliência urbana. A “Muralha Digital” e o atendimento 156 com visão computacional organizam demandas de moradores. Em 2023, venceu prêmio mundial de cidade inteligente com coleta de resíduos otimizada por algoritmos.
Niterói aplica IA em saúde pública, analisando tendências de doenças para melhorar alocação de recursos médicos.
Recife centraliza centenas de serviços digitais no Conecta Recife, usando IA para gestão de consultas e exames.
Até municípios menores inovam. Rio do Sul (SC) usa modelos preditivos para identificar risco de evasão escolar, permitindo intervenções antes que o problema se agrave.
Clima: potencial grande, passos pequenos
“A tecnologia está lá, mas os usuários ainda não”, diz Shruti Gopinathan, tecnologista climática. A IA pode automatizar inventários de emissões, analisar frotas e usar dados de satélite para análises de risco hídrico. Mas tudo exige interpretação humana.
“Não existe ChatGPT para clima. Decisões sobre crise climática em nível local são muito específicas e exigem julgamento humano”, explica.
O lado negativo? Data centers de IA consomem tanta eletricidade quanto 100.000 residências e devem consumir entre 16 e 33 bilhões de galões de água anualmente até 2028, segundo o Pew Research Center.
Os riscos que ninguém quer ver
Até 2027, 65% das cidades globalmente implantarão agentes de IA, segundo a IDC. Este ano, metade dos governos locais alimentará décadas de dados em modelos de linguagem.
O problema? Esses sistemas podem amplificar políticas desatualizadas, preconceitos e desigualdades — e tornar dados sensíveis vulneráveis a ataques.
Cesar Hernandez, da consultoria Omni Public, alerta: “Oportunidades para atores mal-intencionados são infinitas”. Ele visualiza cenários como deepfakes imitando vozes de funcionários públicos para dar informações falsas sobre votação.
“Precisamos pensar sobre IA de uma perspectiva cívica. O que devemos permitir? Quais são as proteções?”, questiona.
As falhas mais prejudiciais virão da “perda de controle operacional sobre resposta emergencial, transporte, serviços públicos e sistemas de licenciamento”. Governos precisarão detectar ameaças cedo e coordenar respostas em tempo real.
Inclusão digital: o elefante na sala
Especialistas alertam: transformação digital só faz sentido se atender necessidades reais da população. A inclusão digital ainda é gargalo para milhões de brasileiros.
“A IA tem potencial para redefinir a relação entre governo e população, desde que seja guiada por ética, dados confiáveis e participação social”, afirma Régis de Oliveira Júnior. “O futuro das cidades inteligentes será determinado pelo compromisso de usar tecnologia para ampliar direitos, não criar novas barreiras”.
Curitiba deu exemplo em 2024 ao sancionar sua Lei de Inteligência Artificial Municipal, estabelecendo princípios para uso responsável. Segundo pesquisa com 100 prefeitos globais, 96% pretendem usar IA generativa nas administrações municipais.
O que vem por aí
A inteligência artificial não é mais promessa — é realidade. 54% dos brasileiros já usaram IA generativa em 2024, superando média global de 48%.
Cidades que liderarem precisarão:
Estabelecer governança clara com supervisão humana Garantir inclusão digital para evitar desigualdades Proteger dados sensíveis com segurança robusta Promover transparência nas decisões algorítmicas Capacitar servidores públicos para novas tecnologias
Como disse Andrew Rogers: “Não será substituição da forma como fazemos as coisas, mas nos tornará mais eficientes, mais inteligentes e salvará vidas, tempo e dinheiro”.
A IA está transformando cidades. O sucesso dependerá de unir inovação tecnológica com valores democráticos, garantindo que os avanços beneficiem toda a população, não apenas uma elite tecnológica.
Informações de SmartCitiesDive

