Transporte coletivo: subsídios de R$ 12 bi ou tarifa real de R$ 8,43?

por Grupo Editores Blog.

O transporte coletivo brasileiro enfrenta dilema fiscal que afeta 365 cidades e 44% da população: manter subsídios que já somam R$ 12 bilhões anuais ou permitir tarifas reais que ultrapassariam R$ 8,43 em algumas capitais? Dessa forma, gestores equilibram acessibilidade para usuários pobres contra sustentabilidade financeira de sistemas deficitários.

Atualmente, subsídios cobrem apenas 30% dos custos operacionais, percentual muito abaixo da média europeia de 55%. Ou seja, enquanto Praga subsidia 74% do transporte público, São Paulo consegue aportar apenas metade dos custos, mantendo tarifa de R$ 5,30 através de pressão orçamentária crescente.

Brasília exemplifica disparidade entre tarifa cobrada e custo real: passageiros pagam cerca de R$ 5,00, mas tarifa técnica que cobriria custos integrais alcançaria R$ 8,43. Logo, cada viagem recebe subsídio de aproximadamente R$ 3,43 que precisa vir de algum lugar do orçamento municipal.

Por outro lado, 135 cidades brasileiras já adotaram tarifa zero total ou parcial, liderando mundialmente essa tendência. Então, Brasil experimenta simultaneamente subsídios insuficientes em capitais grandes e gratuidade completa em municípios pequenos, refletindo ausência de modelo nacional coerente.

Números que assustam gestores municipais

São Paulo gasta R$ 10,34 bilhões anuais com transporte coletivo, mas arrecada apenas R$ 4,3 bilhões em tarifas. Dessa forma, diferença de R$ 6 bilhões precisa ser coberta por subsídios municipais que competem com saúde, educação e outras prioridades.

Mão de obra representa 42,7% dos custos totais do sistema, tornando quase impossível reduzir despesas significativamente. Ou seja, salários de motoristas, cobradores e mecânicos são fixos e protegidos por acordos sindicais. Logo, única alternativa para equilibrar contas é aumentar tarifas ou ampliar subsídios.

Tarifa zero nacional custaria R$ 78 bilhões anuais segundo estudos técnicos. Então, implementar gratuidade total em todas cidades brasileiras exigiria recursos superiores ao orçamento de ministérios inteiros. Além disso, de onde viriam esses recursos sem comprometer outras áreas essenciais?

Passageiros caíram 44% em uma década, agravando crise financeira do setor. Dessa forma, menos usuários dividem custos fixos cada vez maiores, elevando tarifa por passageiro continuamente. Por outro lado, tarifas altas afastam ainda mais usuários, criando espiral viciosa difícil de reverter.

Europa subsidia o dobro: como conseguem?

Praga subsidia impressionantes 74% do transporte público através de impostos municipais diversificados. Ou seja, apenas 26% dos custos vêm diretamente de passageiros, tornando sistema acessível sem comprometer qualidade.

Turim aporta 68% via taxas extratarifárias como pedágios urbanos e tributos sobre veículos particulares. Logo, quem opta por carro individual financia quem usa coletivo, incentivando transição para modais sustentáveis.

Madrid mantém 56% de subsídio através de orçamento municipal robusto, permitindo tarifa acessível mesmo com custos operacionais europeus elevados. Além disso, sistema é eficiente, com alta frequência e cobertura que justificam investimento público.

Berlim combina 54% de subsídio com contribuições variadas incluindo impostos estaduais, federais e taxas específicas sobre mobilidade. Então, financiamento não depende exclusivamente de município, distribuindo ônus entre diferentes esferas governamentais.

Copenhague subsidia 50% utilizando impostos locais progressivos que pesam mais sobre alta renda. Dessa forma, redistribuição acontece através de transporte público acessível financiado por quem tem maior capacidade contributiva.

Por outro lado, sistemas europeus operam com demanda consistente e alta taxa de ocupação. Logo, subsídio percentual alto não significa necessariamente valor absoluto maior que Brasil quando considerada eficiência operacional.

Tarifa zero funciona: casos que comprovam

Tallinn, capital da Estônia, implementou tarifa zero em 2013 após referendo popular. Dessa forma, todos residentes cadastrados usam ônibus e bondes gratuitamente, financiados por impostos locais.

Uso do sistema aumentou significativamente após gratuidade, comprovando que tarifa alta era barreira real para parcela da população. Ou seja, demanda reprimida existia e se manifestou quando custo direto foi eliminado.

Luxemburgo tornou-se primeiro país com transporte nacional completamente gratuito em 2020. Logo, todos modais – trens, ônibus, bondes – operam sem cobrança de passagem em todo território nacional.

Custo é coberto integralmente por orçamento público através de impostos gerais. Então, país pequeno e rico conseguiu universalizar acesso ao transporte sem comprometer finanças públicas.

Belgrado, com 1,7 milhão de habitantes, é maior cidade europeia com tarifa zero desde 2025. Dessa forma, demonstra que gratuidade não se limita a municípios pequenos ou países ricos.

Nos Estados Unidos, Kansas City e Olympia adotaram gratuidade focando acesso a empregos e educação. Logo, transporte deixou de ser barreira para populações vulneráveis buscarem oportunidades.

Por outro lado, todos esses casos têm fontes alternativas de financiamento robustas. Além disso, operam em contextos onde demanda por transporte público é culturalmente estabelecida, diferente de cidades brasileiras dependentes de carros.

Brasil lidera em quantidade, mas não em qualidade

Surpreendentemente, Brasil possui 106 casos de tarifa zero, liderando mundialmente em número absoluto de cidades com gratuidade. Ou seja, país experimenta mais intensamente esse modelo que Europa ou Estados Unidos.

Porém, maioria são municípios pequenos onde custo total é gerenciável. Então, Araucária no Paraná subsidia 75% do transporte, mas opera sistema modesto comparado a São Paulo ou Rio de Janeiro.

Além disso, tarifa zero em cidade pequena não resolve problemas de metrópoles com milhões de passageiros diários. Logo, sucessos locais não são necessariamente replicáveis em escala metropolitana.

São Paulo adota tarifa zero aos domingos, testando modelo parcialmente. Dessa forma, reduz pressão sobre orçamento enquanto oferece acessibilidade em dia específico. Por outro lado, impacto limitado não transforma estruturalmente sistema de transporte paulistano.

Fontes alternativas: saída possível

Pedágios urbanos financiam transporte público em várias cidades europeias. Dessa forma, quem usa carro no centro paga taxa que subsidia ônibus e metrô. Ou seja, externalidade negativa de congestionamento é precificada e revertida para solução.

Vale-transporte poderia ser reformado para ampliar arrecadação e distribuição mais justa. Logo, mecanismo que já existe seria otimizado em vez de criar novo tributo politicamente custoso.

Tributos sobre veículos particulares poderiam ter parcela destinada especificamente a transporte coletivo. Então, IPVA teria componente adicional vinculado a mobilidade urbana sustentável.

Parcerias público-privadas bem estruturadas poderiam trazer eficiência operacional reduzindo custos. Além disso, iniciativa privada teria incentivos para otimizar rotas, horários e manutenção.

Por outro lado, cada fonte alternativa enfrenta resistência política. Logo, pedágio urbano é impopular entre motoristas, reforma do vale-transporte enfrenta lobby empresarial, aumento de IPVA gera rejeição eleitoral.

Decisão que cidades precisam tomar

Manter subsídios crescentes (já R$ 12 bilhões anuais) compromete outras áreas do orçamento municipal. Ou seja, cada real destinado a transporte é real não investido em saúde, educação ou segurança.

Permitir tarifas reais (R$ 8,43 em Brasília) afasta usuários pobres, reduz ainda mais demanda e agrava crise do sistema. Logo, solução puramente tarifária inviabiliza transporte coletivo como política pública de inclusão.

Tarifa zero (R$ 78 bilhões anuais nacionalmente) exige fontes robustas ainda não identificadas claramente. Então, modelo ideal esbarra em realidade fiscal de país com recursos limitados e demandas infinitas.

Europa mostra que 55% de subsídio funciona quando há impostos diversificados e cultura de uso consolidada. Além disso, sistemas europeus são eficientes, pontuais e confortáveis, justificando investimento público alto.

Brasil precisa decidir entre três caminhos: (1) ampliar gradualmente subsídios buscando fontes alternativas; (2) reformar sistemas para reduzir custos operacionais; (3) implementar tarifa zero seletiva começando por cidades pequenas e expandindo conforme viabilidade fiscal.

O transporte coletivo brasileiro consome R$ 12 bilhões em subsídios, mas ainda cobra tarifas que representam 27% do salário mínimo em algumas cidades. Europa subsidia 55% e mantém sistemas eficientes. Tallinn e Luxemburgo provam que tarifa zero funciona. Brasil lidera com 106 casos, mas enfrenta crise de demanda e financiamento. Decisão não é técnica, é política: que modelo de cidade queremos e quanto estamos dispostos a pagar por mobilidade democrática?

 

 

METRÓPOLE SÃO PAULO. Brasil avança nos subsídios às tarifas do transporte coletivo, mas ainda está atrás de outros países. 2024. Disponível em: https://www.metropolisc.com.br/2024/09/brasil-avanca-nos-subsidios-as-tarifas-do-transporte-coletivo-mas-ainda-esta-atras-de-outros-paises. =

MOBILIZE BRASIL. Brasil tem 365 cidades com transporte subsidiado. 2024. Disponível em: https://www.mobilize.org.br/noticias/14117/brasil-tem-365-cidades-com-transporte-subsidiado.html.

MOBILIZE BRASIL. Tarifas do transporte público: Brasil x Mundo (2025). 2025. Disponível em: https://www.mobilize.org.br/estatisticas/75/tarifas-do-transporte-publico-brasil-x-mundo-2025.html

CNN BRASIL. Subsídio ao transporte público atinge R$ 12 bi por ano e desafia futuros prefeitos. 2024. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/subsidio-ao-transporte-publico-atinge-r-12-bi-por-ano-e-desafia-futuros-prefeitos.

PORTAL V. Número de municípios que subsidiam transporte público no Brasil dobra desde a pandemia. 2025. Disponível em: https://www.portalv.com.br/news/numero-de-municipios-que-subsidiam-transporte-publico-no-brasil-dobra-desde-a-pandemia-revela-anuario-ntu.

BORA INVESTIR. Tarifa zero no transporte público custaria R$ 78 bi por ano, diz estudo. 2025. Disponível em: https://borainvestir.b3.com.br/noticias/tarifa-zero-no-transporte-publico-custaria-r-78-bi-por-ano-diz-estudo/.

ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE TRANSPORTES URBANOS (NTU). Subsídios às tarifas do transporte coletivo: Brasil avança, mas ainda segue atrás de outros países. 2024. Disponível em: https://ntu.org.br/novo/NoticiaCompleta.aspx?idArea=10&idNoticia=1843.

G1. Prefeitura de SP diz à Justiça que aumento de tarifa de ônibus para R$ 5,30. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/01/21/prefeitura-de-sp-diz-a-justica-que-aumento-de-tarifa-de-onibus-para-r-530-s

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