A obsessão brasileira com privatização

por Grupo Editores Blog.

 

Olá!

Nos anos 80, burocratas chineses visitavam o Brasil maravilhados com nosso desenvolvimento.

Hoje a situação se inverteu completamente.

Enquanto o Brasil está aprisionado na armadilha da renda média, a China multiplicou sua economia por 18 vezes desde 1980.

Enquanto privatizávamos 80 estatais seguindo o receituário do FMI, os chineses mantinham 95 empresas estratégicas sob controle do Estado.

Enquanto destruíamos cadeias produtivas inteiras com abertura comercial irresponsável, eles construíam Shenzhen – uma megalópole de 15 milhões de habitantes que saiu de uma vila de pescadores em apenas 40 anos.

O que explica essa inversão dramática?

E mais importante: o que podemos aprender com ela?

Hoje vou te mostrar exatamente como duas estratégias opostas nos anos 90 produziram resultados completamente diferentes – e por que isso importa para entender o Brasil de hoje.

Vamos aos fatos.

O Brasil nos anos 90 seguiu a cartilha neoliberal à risca.

 

Fernando Henrique Cardoso privatizou empresas estratégicas em todos os setores: 8 siderúrgicas, 27 petroquímicas, 5 de fertilizantes, 30 elétricas, 7 ferroviárias, 4 portos e dezenas de outras.

Ao todo, foram mais de 80 empresas estatais vendidas entre 1991 e 2002. A promessa era clara: privatizar traria eficiência, reduziria custos, atrairia investimento estrangeiro e nos tornaria competitivos.

O próprio Gustavo Franco, em entrevista à Veja em 2000, chegou a dizer que “a venda das estatais a grupos estrangeiros foi uma verdadeira jogada esperta dos brasileiros”.

Mas os dados contam uma história bem diferente.

A privatização desarticulou o principal mecanismo de coordenação estratégica da economia brasileira – as estatais funcionavam como provedoras de externalidades positivas, ofereciam insumos em condições adequadas e eram centros emergentes de inovação tecnológica.

A China nos anos 90 fez exatamente o oposto.

 

Enquanto o Brasil privatizava freneticamente, a China mantinha 95-100 grandes empresas estatais controlando setores estratégicos: telecomunicações, energia, siderurgia, bancos.

Mais importante: criou zonas especiais de exportação no litoral oferecendo infraestrutura de ponta, terrenos gratuitos, isenções fiscais e acesso ao mercado interno para atrair multinacionais.

A estratégia era clara – usar empresas estrangeiras para absorver tecnologia e construir capacidade produtiva própria.

Desvalorizou brutalmente o yuan em 1994 (para 8-9 por dólar) e manteve câmbio competitivo por décadas, acumulando 4 trilhões de dólares em reservas – 10 vezes os recursos do FMI.

O resultado? Em 2019, a China tinha 10,4% das exportações mundiais contra menos de 2% em 1998, ultrapassando Alemanha, Japão e Estados Unidos.

Os resultados de cada estratégia são devastadores para o Brasil.

 

O festival de privatizações brasileiro produziu indexação de tarifas que aumentou custos, investimento em infraestrutura que passou a correr atrás da demanda criando gargalos, e eliminação de centros de P&D – o Centro de Pesquisas da Telebras foi praticamente desativado.

A abertura comercial com câmbio valorizado e juros altos destruiu elos de cadeias produtivas, elevou coeficientes de importação sem ganhos nas exportações, e afastou o Brasil das cadeias globais de valor.

Resultado: crescimento pífio, investimento estrangeiro focado em fusões e aquisições ao invés de nova capacidade produtiva.

Na China, a história foi oposta: empresas como Apple transferiram produção inteira para lá (Foxconn chegou a ter 700 mil funcionários produzindo iPhones), tecnologia foi absorvida sistematicamente, e hoje a Huawei compete de igual para igual com Apple em smartphones e domina 80% das patentes mundiais de 5G.

A China hoje lidera patentes enquanto o Brasil estagnou.

 

Em 2021, a China conquistou 607 mil patentes – 38% do total mundial, três vezes mais que EUA, três vezes mais que Japão, quatro vezes mais que Coreia do Sul.

Investe aproximadamente $400 bilhões por ano em P&D, contra míseros $20 bilhões do Brasil.

Domina tecnologias críticas: semicondutores de 7 nanômetros apesar de sanções americanas, aviões comerciais competindo com Boeing e Airbus, 70% da produção mundial de painéis solares, liderança em baterias e veículos elétricos.

Shenzhen, que era uma vila de 90 mil habitantes em 1979, hoje tem 15 milhões de pessoas, transporte 100% elétrico e é um dos principais polos de inovação mundial.

Enquanto isso, o Brasil produz praticamente o mesmo volume de aço que produzia 20 anos atrás e tem a mesma renda per capita de 1995.

O modelo híbrido chinês funciona porque combina estado e mercado.

 

A grande lição da China não foi “estatizar tudo” nem “privatizar tudo” – foi manter controle estatal sobre setores estratégicos enquanto liberalizava gradualmente outros setores.

As 95-100 estatais chinesas não são dinossauros ineficientes – a Huawei compete globalmente, a COMAC desenvolve aviões de ponta, empresas de energia e telecomunicações chinesas estão na fronteira tecnológica.

O governo usou joint ventures obrigatórias para transferência de tecnologia, fraca aplicação de leis de propriedade intelectual permitindo engenharia reversa, e investimento estrangeiro direcionado para construir capacidades locais.

Resultado: nos últimos 30 anos, conseguiram atingir notável evolução industrial e manufatureira que seria normalmente esperada para um país com renda per capita muito mais elevada.

A terapia de choque brasileira destruiu o que levamos décadas para construir.

 

Entre 1950-1980, o Brasil triplicou sua renda per capita com JK, Plano de Metas, Milagre Econômico, Itaipu.

Nos anos 80, chineses visitavam Itaipu maravilhados com nossa capacidade de construção. Hoje, brasileiros visitam a China e ficam impressionados com o trem Maglev que faz 30km em 7 minutos a 450 km/h – enquanto em São Paulo fazemos os mesmos 30km em 2 horas na Marginal.

A diferença? A China rejeitou a terapia de choque depois da crise de Tiananmen em 1989, quando tentou liberalizar preços rapidamente e gerou inflação de 25% ao ano.

Aprenderam com o erro e voltaram ao gradualismo.

Já a Rússia aplicou terapia de choque total nos anos 90 e só recuperou o PIB de 1990 em 2015-2016.

O Brasil aplicou uma versão intermediária e ficou estagnado por 40 anos.


A comparação Brasil-China não é sobre comunismo versus capitalismo.

É sobre pragmatismo versus ideologia.

É sobre ter estratégia de desenvolvimento versus seguir cartilhas prontas do exterior.

É sobre construir capacidades produtivas antes de abrir a economia versus abrir tudo de uma vez e torcer para dar certo.

Nos anos 80, éramos nós que impressionávamos os chineses. Hoje, estamos com a mesma renda per capita de três décadas atrás enquanto eles lideram patentes mundiais e definem o futuro tecnológico do planeta.

A pergunta que fica é: vamos continuar insistindo em modelos que já provaram não funcionar, ou finalmente vamos aprender com quem acertou?

P.S. — “Ok, mas estudar a China não muda nada no Brasil. São realidades completamente diferentes.”

Muda tudo — porque os padrões históricos são replicáveis. No curso “O Milagre da China”, você vai estudar exatamente como eles rejeitaram a terapia de choque após Tiananmen (1989), como mantiveram 95 estatais enquanto privatizávamos 80, como desvalorizaram o yuan para 8-9/dólar enquanto valorizávamos o real, como usaram joint ventures para roubar tecnologia enquanto entregávamos nossa indústria de bandeja. Não é sobre copiar a China — é sobre entender os mecanismos causais do desenvolvimento que ela aplicou e nós ignoramos. Quando você domina esses padrões, consegue avaliar qualquer política econômica com rigor histórico.

P.P.S. — Se este é um dos primeiros textos que você lê aqui, visite minha [página de boas-vindas clicando aqui. Separei presentes que vão te ajudar a entender desenvolvimento econômico de verdade — incluindo meu livro completo “Brasil, uma economia que não aprende” (grátis).

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Abraços,

Paulo Gala

Graduado em Economia pela FEA-USP | Mestre e Doutor em Economia pela Fundação Getúlio Vargas em São Paulo | Foi pesquisador visitante nas Universidades de Cambridge UK e Columbia NY | Autor com +10,000 cópias de livros vendidas | Geriu carteiras de +R$ 3,000,000,000 | Professor na FGV/SP há 20 anos.

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