Situação de Rua: Phoenix e Oakland apostam em moradia permanente

por Grupo Editores Blog.

Texto adaptado de smartcitiesdive.com

Enquanto muitas cidades americanas intensificaram remoções forçadas de acampamentos de pessoas em situação de rua, Phoenix (Arizona) e Oakland (Califórnia) atualizaram seus planos estratégicos priorizando prevenção e moradia permanente.

Contexto: ambas viram aumentos recentes:

  • Phoenix: população não abrigada +28% (2023-2024)
  • Oakland: população não abrigada +9% (2022-2024)

Reação de ambas: não intensificar repressão, mas estruturar solução habitacional.

Oakland: meta de -50% até 2031

Plano do Office of Homeless Solutions estabelece:

  • Reduzir população de rua em 50% até 2031
  • 3.630 novas unidades habitacionais ou vouchers em 5 anos
  • Taxa de sucesso de moradia permanente: 92%
  • Orçamento anual necessário: $406 milhões
  • Participação cidade/condado: $122 milhões (30%)

Phoenix: ênfase em prevenção

Plano estratégico aprovado em fevereiro de 2026 pelo City Council foca em:

  • Desenvolver novos modelos habitacionais que facilitem acesso
  • Prevenir entrada em situação de rua
  • Acelerar transição de abrigos temporários para moradia permanente
  • Abordagem de fiscalização “coordenada e humana”

Contexto local:

  • Nos últimos 3 anos, Phoenix adicionou 1.200 vagas em abrigos
  • Financiamento veio de grants federais da era pandemia (expirando em breve)
  • Plano não designa orçamento específico (diferente de Oakland)

“Este plano é passo ousado adiante, mas luta contra situação de rua está longe de terminar. Estamos em estado crítico e não podemos perder impulso”, afirmou Kesha Hodge Washington, vice-prefeita de Phoenix.

Mudança de paradigma

Do que estão fugindo

Modelo tradicional (repressivo):

  1. Remover acampamentos
  2. Apreender pertences
  3. Multar por dormir em locais públicos
  4. Repetir ciclo indefinidamente

Resultado: População se desloca para outra área. Problema não é resolvido, apenas movido.

Para onde estão indo

Modelo baseado em moradia (Housing First):

  1. Oferecer moradia sem pré-condições (sobriedade, emprego, tratamento)
  2. Fornecer serviços de apoio (saúde mental, dependência química, capacitação)
  3. Estabilizar pessoa em ambiente seguro
  4. Trabalhar outras questões após moradia garantida

Lógica: Impossível tratar saúde mental, buscar emprego ou superar vícios vivendo na rua.

Taxa de sucesso em Oakland: 92%

Oakland: plano detalhado

Metas quantificadas

Redução: 50% até 2031

Como chegar lá:

  • 3.630 unidades habitacionais ou vouchers (próximos 5 anos)
  • Foco em moradia permanente (não apenas abrigos temporários)
  • Investimento em prevenção (evitar que pessoas entrem em situação de rua)

Orçamento

Total anual: $406 milhões

Fontes:

  • Cidade de Oakland: ~$61 milhões
  • Condado de Alameda: ~$61 milhões
  • Governo estadual (Califórnia): ~$150 milhões
  • Governo federal: ~$134 milhões

Desafio: Manter financiamento por 5-10 anos.

Abordagem a acampamentos

Não abandona fiscalização, mas muda foco:

Aumenta:

  • Alcance/outreach (equipes de assistência social)
  • Remoção de lixo (questão de saúde pública)

Fiscaliza:

  • Zonas prioritárias de não-acampamento (próximas a escolas, hospitais)

Regra: Antes de remover, oferecer alternativa habitacional.

Phoenix: plano estratégico

Pilares

1. Prevenção Evitar que pessoas percam moradia. Como?

  • Assistência emergencial com aluguel
  • Mediação com proprietários
  • Aconselhamento financeiro
  • Apoio jurídico (evitar despejos)

2. Novos Modelos Habitacionais

Reconhece que modelos tradicionais (apartamentos de 1-2 quartos) não atendem todas necessidades.

Alternativas:

  • Tiny homes (casas minúsculas)
  • Moradias modulares
  • Unidades coletivas (co-living)
  • Conversão de hotéis/motéis

Objetivo: Reduzir tempo e custo para colocar pessoa em moradia.

3. Aceleração de transições

Os abrigos são temporários. Então, a meta é reduzir tempo médio de permanência.

Como:

  • Busca ativa de moradia para cada pessoa
  • Vouchers de aluguel
  • Subsídios de primeiro mês + caução
  • Acompanhamento pós-moradia

4. Fiscalização coordenada e humana

“Coordenada”: Polícia, assistência social, saúde mental trabalham juntas.

“Humana”: Foco em oferecer alternativas, não punir.

Regras claras: Definir onde acampamentos não serão tolerados (segurança, saúde) mas sempre oferecendo opção habitacional.

Problema do financiamento

O plano não designa orçamento.

Desafio: Manter programas quando financiamento federal acabar.

Opções:

  • Impostos municipais dedicados
  • Bonds (títulos municipais)
  • Parcerias público-privadas
  • Realocação orçamentária

Por que moradia permanente funciona (92% em Oakland)

Estabilidade gera recuperação

Pessoa na rua:

  • Dorme mal, acorda várias vezes (risco de violência)
  • Não tem onde guardar medicamentos, documentos
  • Higiene básica é desafio diário
  • Impossível manter emprego
  • Saúde mental deteriora

Pessoa em moradia:

  • Dorme segura
  • Toma banho, lava roupa
  • Guarda pertences
  • Pode buscar emprego
  • Acessa tratamento de saúde

Custo-benefício

Uma pessoa em situação de rua custa ao sistema:

  • Emergências hospitalares: $30-50 mil/ano
  • Interações policiais: $10-20 mil/ano
  • Limpeza de acampamentos: $5-10 mil/ano
  • Serviços de emergência: $5-10 mil/ano

Total: $50-90 mil/ano por pessoa

Moradia permanente + serviços de apoio: $15-30 mil/ano por pessoa

Economia: 40-70%

Dignidade humana

Além de números, há questão ética: toda pessoa merece teto.

Brasil: onde estamos?

Censo 2023: números alarmantes

População em situação de rua: 281.472 pessoas (aumento de 38% desde 2019)

Distribuição:

  • São Paulo: 70.436
  • Rio de Janeiro: 21.856
  • Belo Horizonte: 9.789
  • Recife: 9.059
  • Porto Alegre: 8.115

O que não temos

1. Estratégia nacional estruturada

Não há plano federal com metas, orçamento, metodologia.

2. Orçamento dedicado

Programas são pontuais, dependentes de gestões específicas.

3. Dados confiáveis contínuos

Censo é esporádico. Não há monitoramento trimestral/anual.

4. Integração de serviços

Assistência social, saúde mental, habitação operam separadamente.

5. Foco em moradia permanente

Maioria das iniciativas foca em abrigos temporários, não moradia definitiva.

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