A mobilidade urbana está prestes a dar um salto revolucionário. A Vertical Aerospace, empresa britânica de desenvolvimento de aeronaves elétricas, anunciou em janeiro de 2025 planos para uma rede de táxi aéreo na região metropolitana de Nova York, com operações previstas para 2028. O projeto prevê voos entre vertiportos no centro de Manhattan e aeroportos como Newark Liberty, JFK e Teterboro, além de rotas para entretenimento esportivo e transferências médicas.
A aeronave Valo, que transporta quatro passageiros mais o piloto (com opção de expansão para seis lugares), pode voar até 100 milhas (160 km) a velocidades de até 150 mph (241 km/h). Segundo Dómhnal Slattery, presidente da Vertical Aerospace, “desde o início, a Valo foi projetada para atender aos mais altos padrões da aviação civil — os mesmos padrões aplicados a grandes aviões comerciais”.
O projeto é uma parceria entre Vertical Aerospace, Bristow Group (operadora de helicópteros) e Skyports Infrastructure (operadora e construtora de vertiportos). A empresa exibiu sua aeronave em Nova York logo após o anúncio, demonstrando viagens potenciais do centro de Manhattan para o estádio onde jogam os New York Giants e Jets, além de rotas de lazer e transferências médicas.
Corrida global pelos táxis aéreos
Nos Estados Unidos, empresas como Archer Aviation e Joby Aviation, com apoio de gigantes como Stellantis, United Airlines e Toyota Motor Corp., miram operações comerciais já em 2026. Cidades como Los Angeles, Miami, Nova York e São Francisco podem estar entre as primeiras a receber esses veículos elétricos de decolagem e pouso vertical (eVTOLs).
Outros players importantes incluem a Wisk Aero, subsidiária da Boeing, que planeja lançar serviço de táxi aéreo até 2030, e a Supernal, parte do Hyundai Motor Group. Todos esses desenvolvedores já realizaram voos de demonstração com pilotos, um passo crucial para obter as certificações necessárias da Federal Aviation Administration (FAA) para começar a transportar passageiros pagantes.
Brasil na vanguarda tecnológica
Enquanto os Estados Unidos preparam a infraestrutura comercial, o Brasil não fica para trás na corrida tecnológica. A Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) está em processo avançado de certificação do EVE-100, projeto da Embraer que pode colocar o país como exportador global desta tecnologia.
Regulamentação em andamento
Em maio de 2025, a ANAC abriu consulta setorial para objetivos de segurança voltados à certificação de eVTOLs classificados como Powered-Lift Nível de Certificação 2, abrangendo modelos com capacidade entre dois e seis passageiros e peso bruto máximo inferior a 5.670 kg.
A agência firmou acordo de cooperação com a FAA dos Estados Unidos para compartilhamento de experiências e trabalho colaborativo na certificação desses veículos. Segundo a ANAC, os eVTOLs promovem “integração com cidades, menor nível de ruído e emissão zero de poluentes”.
Primeiro Voo Experimental Brasileiro
Em setembro de 2024, foi realizado o primeiro voo experimental de eVTOL no Brasil, no município de Quadra (SP). A empresa Go Hobby, autorizada pela ANAC, testou o modelo chinês EH216-S, vendido atualmente por US$ 600 mil (aproximadamente R$ 3,7 milhões).
A consultoria britânica Deloitte estima que os eVTOLs se tornarão populares como meio de transporte na década de 2030, à medida que os custos operacionais diminuam e a infraestrutura se expanda.
Requisitos para Pilotos
A ANAC já propôs requisitos para pilotos de eVTOLs: mínimo de 18 anos, ensino médio completo, certificado médico aeronáutico de primeira classe e experiência recente em operação aérea. Para voos comerciais, será necessária complementação com voos supervisionados e treinamento específico da empresa aérea.
Desafios tecnológicos e de infraestrutura
Dependência de conectividade
A maioria dos eVTOLs é autônoma e 100% dependente de internet. Falhas de conectividade podem comprometer a segurança operacional. Cidades que desejam implementar essa tecnologia precisarão garantir infraestrutura robusta de telecomunicações nas áreas de operação de vertiportos.
Infraestrutura de recarga
A operação de eVTOLs exige vertiportos — helipontos adaptados com carregadores elétricos. São Paulo, por exemplo, possui extensa rede de helipontos que podem ser convertidos, mas a maioria não possui infraestrutura de recarga elétrica necessária para estas aeronaves.
A instalação de vertiportos demanda planejamento urbano cuidadoso, considerando fatores como integração com outros modais de transporte, impactos no tráfego aéreo existente e acessibilidade para diferentes perfis de usuários.
Restrições orçamentárias
Desafios financeiros podem afetar o cronograma de implementação. No Brasil, em julho de 2025, bloqueio de R$ 30 milhões no orçamento da ANAC suspendeu temporariamente processos de certificação, incluindo os eVTOLs, evidenciando a vulnerabilidade de projetos de inovação a restrições fiscais.
Embraer: Protagonismo Brasileiro
A Eve Air Mobility, subsidiária da Embraer, tem mais de 3.000 eVTOLs encomendados por clientes globais, incluindo companhias aéreas brasileiras como Gol e Azul. A empresa planeja fábrica no Vale do Paraíba (SP), consolidando o Brasil como exportador de tecnologia aeroespacial de ponta.
O modelo EVE-100 tem autonomia para rotas urbanas e interurbanas curtas, com capacidade para quatro passageiros mais piloto. A empresa trabalha não apenas no desenvolvimento da aeronave, mas também em soluções integradas de gerenciamento de tráfego aéreo urbano e infraestrutura de vertiportos.
Este protagonismo brasileiro representa importante mudança no cenário econômico regional. O Vale do Paraíba pode se consolidar como polo global de mobilidade aérea urbana, atraindo empresas de tecnologia, serviços especializados e mão de obra qualificada.
Impactos econômicos da mobilidade aérea urbana
Valorização imobiliária
Estudos sobre mobilidade urbana demonstram que infraestrutura de transporte de qualidade valoriza imóveis no entorno. Estações de metrô, por exemplo, podem gerar valorização de 15% a 30% em imóveis próximos. Espera-se efeito similar com vertiportos, especialmente em áreas metropolitanas onde o tempo economizado em deslocamentos tem alto valor econômico.
Desenvolvimento comercial
Áreas próximas a vertiportos tendem a atrair serviços complementares: lounges executivos, estacionamentos, centros de manutenção e empresas de tecnologia. Esse desenvolvimento cria ecossistemas econômicos locais com geração de empregos e dinamismo comercial.
Novos modelos de negócio
A mobilidade aérea urbana abre oportunidades para diversos setores:
- Operadores de táxi aéreo
- Empresas de manutenção especializada
- Desenvolvedores de software para gestão de tráfego aéreo
- Construtores e operadores de vertiportos
- Fornecedores de energia e sistemas de recarga
- Seguradoras especializadas
Perspectivas para a Próxima Década
Cronograma de Implementação
- 2026-2028: Início de operações comerciais nos EUA (Archer, Joby, Vertical)
- 2028-2030: Expansão para mais cidades americanas e possível início no Brasil
- 2030+: Popularização e redução de custos conforme escala aumenta
Integração com Smart Cities
A mobilidade aérea urbana é componente importante do conceito de cidades inteligentes. Sistemas integrados de gerenciamento de tráfego, tanto terrestre quanto aéreo, permitirão otimização de rotas e redução de congestionamentos em todas as dimensões.
Plataformas digitais conectarão diferentes modais — eVTOLs, metrô, ônibus, bicicletas compartilhadas — oferecendo aos usuários opções integradas de deslocamento com pagamento unificado.

